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Guionismo no Expresso

por Nuno Costa Santos, em 25.03.18

Que me perdoem os meus comparsas guionistas mas as melhores telenovelas do momento não estão nas televisões mas nas peças do Expresso sobre política. Os cenários e os termos usados para os descrever trazem todos os condimentos de boas histórias, entre comentários assassinos e lutas pelo poder. E também, nas entrelinhas, ressentimentos, traições, ciúmes e desejos de vingança. Na “notícia” intitulada “Como Sócrates Pode Condicionar Estratégia de Costa para Belém” temos ingredientes de um argumento que já se cumpre e promete muito mais. Ora leia-se: “’É óbvio que José Sócrates deve andar com pensamentos a ver como é que se safa disto. E ele tem o exemplo do Lula’, afirmou ao Expresso um barão socialista, que não descarta a tentação presidencial”. Mais à frente, na mesma peça, a referência à preocupação do Presidente da República acrescenta um picante fabuloso, com já imaginadas cenas dos próximos capítulos: “Em Belém, onde o inquilino Marcelo já perdeu alguns minutos a analisar o assunto, a leitura é outra. Se Sócrates se candidatar, isso ‘obriga o PS a inventar um candidato qualquer (Sampaio da Nova?)”. Repare-se na expressão “candidato qualquer”, seguida da venenosa amabilidade da sugestão entre parêntesis - e com interrogação.

Noutra notícia, “Críticos admitem queda de Rio antes das legislativas”, também há toda uma trama com muito potencial e que junta uma grandiosa sonsice e sentenças em off de generais ainda no activo: “’Ninguém está interessado em deitá-lo abaixo, mas isso está cada vez mais em cima da mesa. Nunca se viu tanta asneira junta’, comenta, também sob anonimato, um senador". Confirma-se que na política portuguesa o anónimo tem mais protagonismo do que o que aparece na televisão. Note-se que também há algum burlesco nestes episódios e no modo como são referidos, essencial para fazer distender as tensões dramáticas. Sobre a posição actual de Luís Montenegro, que aparenta preferir esperar uns largos meses antes de abocanhar o adversário, emerge um terno miminho no tratamento - que o departamento novelesco do Expresso não hesita em reproduzir: “Ele não quer, mas as coisas podem não depender do que o ‘Luisinho’ quer ou não”, comenta um seu apoiante”. Convenhamos que ao pé disto telenovelas como "Paixão" e "Jogo Duplo" são autênticos Diários da República.

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publicado às 02:40



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