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Wit and Community

por Nuno Costa Santos, em 02.03.14

As palavras que mais tenho lido em Inglaterra são "community" e "wit". Nos letreiros, nos anúncios, nas primeiras páginas dos livros. São dois termos que definem um  país. O sentido de comunidade, de pertença. E a vocação para o dito espirituoso, sempre vigilante perante a pompa dos comentários e dos discursos.


Não consigo resistir à comparação melancólica, sabendo que damos calcinhas aos ingleses em vários campeonatos, como o da afectividade  (neste aspecto sinto-me bem mais próximo dos irlandeses, por exemplo), o do rasgo de última hora e o da nossa ternurinha (levem-me tudo mas não me tirem os diminutivos).

São duas práticas e dois valores que pouco encontro na minha portuguesa terra que tanto amo. O nosso sentido de comunidade pouco existe (e a circunstância não tem a ver com este governo – começou há muito, com a indisponibilidade para cumprimentarmos a vizinhança), desconfiamos de “charities” (ou algo do género) e somos pouco dados ao associativismo e ao voluntariado. O nosso sentido de humor é dirigido aos outros -  ao vizinho, ao colega de trabalho, ao chefe, ao político, ao famoso.

Achamos que só o Estado deve ajudar a senhora que vive sozinha no quarto andar sem elevador e colocamo-nos numa posição de superioridade para exercermos o nosso sarcasmo de seres imaculados. Pouco nos metemo connosco próprios, evitamos lançar dúvidas sobre as nossas sentenças cheias de razão. Quem o faz publicamente é visto como um ser frágil, fraco, pouco digno de ser seguido.

Há também aqui, pelo menos em Londres, aquele tipo de civilidade, de “gentleness” - nos cafés, nas ruas – que, para os críticos, pode ser superficial mas ajuda a tornar os encontros mais agradáveis. Quem atende levanta a cabeça e deixa cair um "cheers" capaz de tornar cada instante uma pequena festa entre duas pessoas.
Haver mais dinheiro, mais guito ajuda mas, como sabemos, as boas maneiras não abrem a carteira. Já encontrei um sem-abrigo lisboeta, deitado no chão da rua, a perguntar a quem passava se desejava um pouco do pão que segurava nas mãos. Falei do assunto há umas crónicas: na minha terra tenho encontrado cada vez funcionários que fazem questão de ostentar que me estão a fazer um frete quando lhes faço um pedido quotidiano. E isso, convenhamos, não ajuda assim muito.

 

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publicado às 12:25



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