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Vivo

por Nuno Costa Santos, em 30.08.15

Começo por dizer que estou indignado com o Pedro Arruda por, aos 40 anos, ter publicado este livro de poemas. Um atrevimento! Ainda por cima é um livro de amor. Não queria ter de explicar isto: o amor morreu, Pedro. O amor já não existe. O amor foi extinto pelo cinismo. E o cinismo nada tem a ver com o amor. O cinismo é uma paixão. Uma paixão pelo azedume. Há mais lince-ibérico do que amor, Pedro.

(É sempre bom uma pessoa ocupar-se de sentimentos que já não existem. A arqueologia merece um elogio. A ficção científica também).

Mas há mais: esta é uma edição de autor. Isto, meu deus, já ultrapassa tudo o que é razoável! E ainda por cima uma edição cuidada e desenhada pela Júlia Garcia. Mas o que é isto, Pedro? As edições de autor morreram. Porque as edições de autor são mais do que amor. São actos de devoção. E de liberdade, para além das regras de hipermercado que nos cercam. Estamos na presença de um escândalo, meus senhores. Espero que tenhamos consciência disso.

Vamos agora analisar esta insanidade. Em vez de “20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, que foi aquilo que, como sabemos. escreveu o cidadão Pablo Neruda, o Pedro escreveu “15 Poemas de Amor e um Divertimento”. Percebo: os tempos são de austeridade. E a austeridade poética é algo que não tem sido tão falada mas também existe.

Este livro tem palavras. O que até faz sentido, tendo em conta que é um livro e há muitos livros com palavras. Palavras como “sol”, “mar”, “Verão”, “corpo”, “beijo”, “sexo”, “sonho”, “infância”, “pássaros”, “mãos”, "riso". E é um livro pelo sentimento puro para além dos dias. Um livro contra o desgaste, um livro da festa do decisivo, uma “Árvore da Vida” do essencial que nos foge com as contas do dia a dia e os telefonemas da MEO a tentarem impingir-nos mais uma promoção que dispensamos.

É um livro da crença quase romântica na literatura (não: da crença romântica na literatura) e no poder das palavras como forma de alterar a relação com o mundo e de voltar a um íntimo sublime que se deseja recuperar. E é uma homenagem waltwhitmaniana à Natureza. E lembro-me de Whitman ser, nas nossas adolescências, uma das preferências insensatas do Pedro.

15 poemas que são um fluxo das coisas belas. Que arriscam na sua busca. Que procuram. Que não se vigiam em cada instante. Que se deixam ir. E que encontram as melhores paragens para descansar: “Quando comecei a escrever/não chovia”, “se conheceres a consciência das coisas/ o tempo não te ultrapassará” e “no espaço de um poema serás para sempre”.

O “divertimento” deste livro é como um traçadinho depois de uma refeição doce. É um poema cheio de humor, a partir de uma conversa ouvida no Café Internacional, na Horta, sobre uma rapariga que não festeja o Dia dos Namorados porque o namorado a trocou por uma amiga. É algo importante. Tenhamos compaixão pela moça.

Há mais um motivo para nos indignarmos com o Pedro. Há aqui muita coragem. A coragem de escrever, a coragem de se jogar, a coragem de partilhar. A coragem morreu, Pedro. Hoje somos tão prudentes. Vamos todos morrer por excesso de prudência no sangue. Acreditem no que vos digo.

O Pedro, não. O Pedro vai ficar vivo. Para depois contar como é que isto é.

(texto lido/dito no lançamento de “15 Poemas de Amor e um Divertimento”, de Pedro de Mendoza, edição de Junho de 2015)

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publicado às 18:39



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