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Violência Doméstica

por Nuno Costa Santos, em 18.02.15

Existe muitas vezes em Portugal a ideia de que uma boa escrita literária é uma escrita poética. Uma ideia equívoca. Uma boa escrita literária é aquela que melhor serve o propósito do texto. E se o propósito do texto estiver longe de qualquer tipo de lirismo a escrita poética só está ali para atrapalhar.

 

“Acabar com Eddy Bellegueule”, de Édouard Louis (edição da Fumo Editora com tradução de António Guerreiro), é feito de uma escrita que nada tem de poética. E o tema – a afirmação de uma identidade pessoal/ sexual/cultural – podia pedir floreios de linguagem. Édouard Louis, novíssimo escriba, recusa essa solução e prefere um tom que nada tem de descontrolado. É económico, consciente, seco. Com o sentido do início, com a preocupação do remate.

 

A primeira frase do romance é o erguer de punhos do narrador e protagonista: “Da minha infância, não tenho nenhuma recordação feliz”. Uma infância passada numa aldeia do Norte de França, com os pais a zelaram para lhe dar “uma boa educação”, protegida daquilo a que chamam “a escória e os árabes da cidade”.

eddy.jpg

 

Não há aqui uma melancólica procura do tempo perdido. Existe a narração de um bullying que começa por atingir fisicamente alguém (aos 10 anos, leva com escarros no rosto) e depois se torna um pesadelo cruel e grotesco para um ser “efeminado”, homossexual, descolocado, num sítio onde só se impõem os brutos. No masculino e no feminino (as mulheres da terra dizem frases como “eu cá tenho colhões, ninguém faz de mim o que quer”).

 

“Acabar com Eddy Bellegueule” é a vingança de um personagem ofendido – não a vingança do dente por dente mas a vingança possível pela literatura, pelo ofício da linguagem. Aquela que permite a consagração de um ambiente que pouco se conhece, onde as alcunhas são hereditárias e os pais comem pela marmita “como os animais”. Não é uma redacção escolar, um poema em prosa sobre um universo pitoresco ou um relato de auto-ajuda. É literatura mesmo, potenciada pelo trabalho de procura e corte (Louis disse ao Les Inrocks: “Les vérités que j’ai essayé de mettre à jour, je n’ai pu les mettre à jour que par le travail littéraire, stylistique, formel, un travail sur la langue, sur la ponctuation, etc”). Nesse sentido pouco importará saber se é a autobiografia do autor, ele mesmo vindo de um meio e com um alegado percurso de emancipação semelhantes aos de Eddy.

 

Eis o retrato literário de uma França rural para além das aparências parisienses: xenófoba, machista, homofóbica. Fundamentalista também, como aquela que se vai impondo, hoje, pelo terror. Nesse sentido não será muito diferente de um certo Portugal que João Bonifácio retratou numa reportagem para o jornal Público, a partir do caso Palito - uma peça que retrata o sequestro humano e social provocado por aquilo que se convencionou chamar violência doméstica. Sem controlo algum. E, pior, aceite.

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publicado às 23:36



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