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Tiros no Panteão

por Nuno Costa Santos, em 28.01.14

Nunca mais perguntaram se já liguei à minha avó a saber da hérnia. Essa desatenção desgosta-me. Mas não é sobre a minha avó que me venho, cronisticamente, pronunciar. Venho falar da minha mãe, sua filha, a quem também devia ligar mais vezes. E de um senhor chamado Herman José, que agora celebra 40 anos de talento público.

Um mês depois de vir estudar para Lisboa, recebi uma chamada de minha mãe: “Lembras-te de quando te sentavas todos os dias ao fim da tarde para assistir à Roda da Sorte?”. A voz trazia a emoção de mãe que havia perdido o seu menino. Através da memória deste meu pequeno gesto diário revelava-se o amor e a saudade de uma mãe que via todos os dias o seu filho adolescente pousar a mochila no tapete da sala para se rir durante uns minutos. O terno costume quebrava-se com a partida do "emigrante".

Um concurso sobre nada, transcendido pelo improviso humorístico genial de quem o conduzia, era a minha missa de fim de tarde. Nossa - de tanta gente com a minha idade e com vontade de se divertir. Herman era o meu diácono – um Diácono pouco Remédios, um padre sem regras, libertário. Conhecia-lhe os refrões, os residentes no público, a Maria Ivone. Era um beato daquele momento humorístico, a quem uma geração prestava devoção ao mesmo que os pais, como é próprio dos pais, iam comentando que começava a haver ordinarice a mais no palavreado do garoto grande.

Há dois dias, numa aula de guionismo para candidatos a realizadores, passei um pedaço do último episódio da “Roda da Sorte”, dor de cabeça para quem realizava um programa de estúdio conduzido por um bicho indomesticável. O fecho da loja, durante o qual o apresentador disparou tiros contra o cenário e os electrodomésticos, no gesto mais punk da tv portuguesa. 

Para a minha mãe ficam reservados telefonemas e encontros muitos. Ao Herman fica, aqui do meu cantinho, um obrigado. Ainda estás por aí e, sentado noutra cadeira, ainda topo, em dois ou três segundos, um fogo repentino, a tua vontade infantil de partir o serviço das tias. Se um dia fores fores escolhido pelo comité vais acabar a dar tiros no panteão.

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publicado às 18:06



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