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Em Câmara Lenta como na TV

por Nuno Costa Santos, em 24.03.14

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publicado às 13:33

Musical no Martim Moniz

por Nuno Costa Santos, em 20.03.14

 

 

 

 

Cada um tem o seu sonho. Alimentei durante anos o delírio de realizar um musical no Martim Moniz. Aqui fica a crónica em vídeo com a participação, entre outros, do David Almeida, do Diogo Batáguas e do meu querido Pedro Múrias - que anda a ver isto tudo com o gozo com que sempre acompanhou as coisinhas da vida.

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publicado às 20:29

Crescer numa ilha

por Nuno Costa Santos, em 18.03.14

Hoje a Isabel Gomes e eu tínhamos uma entrevista marcada com José Medeiros Ferreira. Medeiros Ferreira justificou a escolha deste dia de um modo lacónico e belo: gostava muito de terças-feiras. Morreu sem que tivéssemos podido falado com ele de um modo mais pessoal, mais íntimo. Que passava por um regresso necessário à infância e à adolescência.

 

Agora que estou em casa, defronte do computador, recordo-me de um artigo que escreveu chamado "A Aprendizagem Insular da Cultura", onde, a partir de uma formulação feliz, afirma a importância da sua condição de ilhéu e das suas experiências na ilha de São Miguel para a forma como entendia o mundo.

 

Havia nele um orgulho açoriano, terreno e equilibrado, culto, bem-humorado.

 

Um dos pontos mais importantes desse artigo é a afirmação da necessidade que o insular tem de "ir mais além". De exercer a sua curiosidade, de olhar o mundo a partir da sua condição de autonomia e isolamento, de cruzar a tradição com a inovação. A partir de certa altura do texto faz a narrativa da forma como se foi erguendo como "homem de cultura", nunca esquecendo a dimensão do interesse futebolístico (chega a afirmar, muito ao seu estilo, "Até aos 15 anos fui muito pouco intelectual!").

 

Entre 1948 e 1954 viveu em Vila Franca do Campo e foi aí que semeou a curiosidade pelo cinema ("Ainda me lembro de lá ter visto filmes como "Terceiro Homem", o "Homem da Torre Eiffel", "A Vida de Berlioz" e mesmo alguns Charlots que depois me serviriam de inspiração para uma ousada conferência sobre Charlie Chaplin no círculo 'Antero de Quental'). Na altura da entrada no liceu, foi viver para a Fajã de Cima com os avós, conviveu com muitos locais e, quando o liceu encerrava portas, passou a cruzar experiências com muita gente "de fora da cidade" (como se diz em São Miguel).

 

A dado momento nasceu a vontade de, convocado por Viriato Madeira e Cristóvão de Aguiar, devorar "imensa literatura" numa biblioteca ainda com separação de sexos, de saber o que se passava "lá fora" através da rádio, de ouvir música. E de discutir ideias, uma das suas vocações maiores - de debater assuntos filosóficos, políticos, desportivos.

 

Na vivência no liceu, que ultrapassou o campeonato escolar, deixou-se marcar por alguns professores, conheceu e cruzou-se com muitos elementos que mais tarde se destacaram em áreas diversas e que com ele partilharam essa aprendizagem insular da cultura. Ah, e deixou crescer a barba "para impressionar as pessoas".

 

Durante a crise estudantil em Lisboa, achou por bem manter nos plenários uma evidente pronúncia micaelense. Hoje morreu um português que nunca se esqueceu de onde tinha chegado.

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publicado às 21:24

As banalidades essenciais

por Nuno Costa Santos, em 16.03.14

A vida é um cliché. Não há volta a dar. Do nascimento à morte vão acontecendo episódios e sentimentos que se repetem em muitos corações. Por isso não percebo este adiantamento mental que se pronuncia em cada esquina: "Ah, isso é um cliché!". Ah pois é.

Os grandes temas que marcam a vida são quase sempre os mesmos e a forma como reagimos aos mesmos repete-se. Alguns: o amor, a amizade, as relações familiares, o medo, a esperança, o sexo, o desejo, a culpa, a relação com a transcendência (ou a ausência dela), a ansiedade, a redenção, a infância que fica estacionada até ao fim em cada um de nós.

 

Andamos sempre a falar do mesmo, com os termos de sempre? As histórias em que nos metemos vão-se repetindo? Sim, sim. A vida é isto, meus queridos avaliadores de clichés (há muitos, com cédula profissional). Se quiserem outra narrativa comprem outro jogo de computador. Este tem níveis parecidos e lugares comuns. É urgente deixar a frase: "Sei que isto é um cliché mas".

 

Um tipo está na boa, com os assuntos arrumados, e, sem que tire senha, acontece-lhe uma peripécia. É despedido, tem um desastre, apaixona-se. Torna-se ridículo no SMS quando se enamora, fica sentimental nas palavras quando se torna avô, fala de felicidade quando se mete em encrencas, chora quando espera um filho emigrado que vem passar as férias em casa.

 

Sim, o homem é um cliché ambulante. Na acção e no verbo. E alguma da melhor arte - aquela que é classificada de "cliché" pelos adiantados mentais - reflecte este caos repetido em que nos desorganizamos.

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publicado às 20:37

Pessoas

por Nuno Costa Santos, em 15.03.14

Por que é que culpabilizamos tanto os nossos pais? Por que é que lhes atribuímos a culpa por aquilo que não nos orgulhamos de ser? É uma generalização, bem sei. Mas uma generalização que se torna necessária por me rodear de tanta gente que gasta a vida a apontar o dedo aos pais (sim, por vezes sucumbo também à armadilha). Haverá teorias psicológicas muitas sobre o assunto mas hoje não estou aqui para estender teorias.

Estou aqui antes de mais para deixar um comentário que encontrei num jornal inglês, feito por Ben Watt, aquela parte da banda Everything But The Girl que se apaga para deixar brilhar a discrição de Tracey Thorn. Ben encontrou as cartas secretas de amor trocadas entre os pais (o pai já morreu e a mãe está em processo de demência) e sentiu que mereciam a atenção da sua escrita. Queria conhecer os pais como pessoas.

Numa entrevista disse palavras simples, a propósito do lançamento desse livro, "Romany and Tom", mas que tantos de nós, filhos, temos dificuldade em dizer:

"When you are young you are going through your own golden years. Then you reach the point where you see you, too, have crested the hill. Perhaps that is when you reflect. You look at your parents for the first time and see that the people we judge are just ordinary human beings trying to do their best, altered by all the experiences they have had, so many of which we have never known, still fighting their way through just as you are."

Há quem, com alguma evidência, não saiba estar à altura das tarefas paternas. Mas acredito que a maior parte dos pais entra na categoria lembrada por Ben Watt: a de pessoas que se enganaram e se enganam quando nos educaram e que só querem ser felizes, como nós. Ao amadurecer, ao envelhecer, descobriu o código da caixa-forte da empatia e da gratidão. Quantos serão capazes dessa procura?

 

 

 

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publicado às 10:09

Irmãos

por Nuno Costa Santos, em 14.03.14


Às vezes acontece-nos isso: esquecermo-nos por um instante da nossa biografia, da nossa idade, da nossa artilharia, da nossa ganga, dos nossos medos, dos nossos ressentimentos. William Faulkner, em “A Fábula”, com o pretexto da Primeira Grande Guerra, escreveu palavras maiores sobre essa possibilidade da condição humana: "Se todos nós, o inteiro batalhão, pelo menos um batalhão, deixar ascarabinas e as granadas e tudo para trás de nós na trincheira: trepar apenas de mãos nuas por cima do parapeito e atravessar o arame farpado e depois caminharmos apenas de mãos nuas, não de mãos erguidas para nos rendermos mas apenas abertas para mostrar que não temos nada para magoar, para ferir ninguém; não a correr, a tropeçar: apenas a avançar como homens livres que não querem nada excepto voltarem para casa e enfiarem-se em roupa limpa e trabalharem e beberem um pouco de cerveja à noite e conversarem e depois deitarem-se e dormirem e não terem medo”.

É isso. Ficamos apenas homens. Homens sem bilhetes de identidade, sem contas bancárias, sem números de segurança social, sem estatuto social e profissional, sem códigos de multibanco, sem dívidas. Homens apenas. Aconteceu-me no outro dia, durante um jogo de bowling, que arrisquei pela primeira vez. Joguei-o com conhecidos com quem estamos (eu e uma data de gente) a trabalhar num projecto sobre a experiência da deportação. À tarde havíamos feito um exercício que passava por reproduzir em palco a última ceia a partir do quadro de da Vinci. Cada um, crentes e não crentes, subiu ao palco em silêncio e colocou-se na posição ou do profeta ou dos apóstolos.

Agora percebo que aquele jogo de bowling também foi a nossa ceia, luminosa, sem sombra e sem deslealdade a cobrir a toalha. Uma partilha. A quimera de Faulkner. Éramos irmãos à volta de uma mesa, esquecidos das nossas diferenças, das guerras do mundo, dos preconceitos que as circunstâncias querem impor a uns e a uns outros. Irmãos aproximados por um jogo. Apoiámo-nos, gozámos uns com os outros, fizemos brindes com copos de cerveja de plástico. 


Foi uma ceia, sim. Que não seja a última.

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publicado às 08:00

O Marginal em Movimento Sexy

por Nuno Costa Santos, em 11.03.14

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publicado às 09:47

Bicas ao Balcão

por Nuno Costa Santos, em 07.03.14

George Steiner partilha, neste conjunto de ensaios recém-editado pela Gradiva ("Linguagem e Silêncio", Janeiro de 2014), a melancolia de quem entende que a linguagem, aquela que merece o qualificativo, está a ser desvalorizada, de que se fala e escreve demasiado, com leviandade. "(...) Vivemos numa cultura que é cada vez mais um turbilhão de palavreado oco, palavreado que se estende da teologia à política e confere um ruído inaudito aos problemas íntimos de cada um (...)".

É a mesma "nostalgia" de um território idealizado onde, para citar um motivo da sua atenção registado noutro ensaio, os cafés e as cafetarias têm um papel fundador de vida e de reflexão demorada e convivial: "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (…). Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'Ideia de Europa'".

Acompanho Steiner na indignação (movimento, ironicamente, ruidoso) contra a verborreia, na qual, entre a alegria e a tristeza, também vou participando. Uma verborreia absurda que um dia poderá ter um epílogo absurdo. "(...) Trata-se de um mundo que não terminará numa explosão nem num grito, mas num título de primeira página, num lema publicitário, num romance obsceno tão palavrosamente frondoso como um cedro do Líbano". 

E, sentado na minha poltrona marginal, faço uma pergunta semelhante à que faz no seu livro: "Em que proporção deste fluxo quotidiano as palavras acedem à palavra? E onde encontraremos o silêncio necessário para que possamos aperceber-nos dessa metamorfose?". 

O que o velho e sábio Steiner quer dizer quando sublinha a gritaria generalizada, feita também de uma actividade editorial que "concede à mediocridade um esplendor espúrio e passageiro", é que já não existem aqueles cafés por ele nomeados, com os quais procura ainda sustentar uma ideia de Europa - de cultura. 

Não deixo de topar algum exagero nas suas palavras e a desvalorização instintiva de um universo internético que pouco tem a ver com as bibliotecas que frequentou mas que, aqui e ali, traz algumas conversas que desorientam, com benefício, os neurónios e os preconceitos.

Mas a verdade verdadinha é que o tempo não está para cafés, aqueles que evocou com necessário romantismo. Está para bicas ao balcão. Para um zapping desenfreado de temazinhos. Para o campeonato de quem fala mais alto sobre o prato do dia (muitas vezes uma boca, um tiro ao lado, uma patifaria, uma historieta). Que no dia a seguir já ninguém quer mastigar.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 20:34

Na Praia com Nemésio

por Nuno Costa Santos, em 06.03.14

Ontem passeei pela Praia da Vitória de Vitorino Nemésio. Sinto-me muito confortável na Praia. Talvez até mais - oh sacrilégio! - do que em Angra do Heroísmo. Ali estou fora do mundo e dentro do mundo também. O mundo que me interessa. O de poder estar num café que promete wireless mas não o tem. Tão bom encontrar cafés assim. Os que permitem escrever, ler, olhar para as moscas que, entre os folhados, procuram o sentido da vida sem nunca o encontrar.

 

Visitei a casa onde nasceu Nemésio  (19 de Dezembro de 1901), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro. Diz a crónica que nasceu de parto difícil. Ficou com a caixa da infância arrumada na memória, reproduzida na biografia literária que José Martins Garcia lhe dedicou: "Eu na banheira, menino, é só uma nuvem de vapor de água e pedacinhos de sabão com que brincava: depois a sensação aconchegada do lençol do enxugo... Como que a sensação de desforra do trauma de nascimento de que fala Freud, e que em mim não deve ter sido pequeno. Citarei Job?".

 

 Não citaremos nós todos Job, pergunto a Nemésio aqui neste quarto de residencial em Angra, ao som de um rapaz jobiano chamado Morrissey? Volto à Praia, regresso à casa onde está em exposição "Canto Matinal", o livro que editou em 1916, e recordo o que fiquei a saber, ao passar os olhos pelo livro de Martins Garcia, de uma infância sabotada materialmente à custa falência da firma onde o pai trabalhava e cercada pelos demónios da peste, da fome e dos terramotos. Imagino também o futuro professor de Letras genial a rebelar-se, na idade juvenil, perante as matérias que lhe eram impostas. Desinteressado, num registo militante, do objectivo de ser "bom aluno". Sublinho a desorientação vocacional que se seguiu no início da idade adulta, com a passagem por cursos vários. Espreito os seus interesses muitos, comprovados em conversas televisivas que nunca mais ninguém conseguiu ter.

 

A desorientação de Vitorino Nemésio era a sua bússola. É isso. No passeio pela Praia, na leitura do seu perfil, fico a entender melhor o coração do escritor "comovido a Oeste". Autor que merece ser mais lido, sobretudo na poesia e na crónica (porque menos conhecidas). Foi essa inquietude que lhe permitiu ser o que era: alguém que escreveu, falou e circulou com a leveza possível só permitida a quem cozinhou livremente uma curiosidade oceânica.

 

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publicado às 15:45

Um astronauta na Terra

por Nuno Costa Santos, em 04.03.14

Um pai e um filho, lado a lado, a dar uma mija ao ar livre. É destes pequeníssimos e decisivos gestos de cumplicidade que se faz "Nebraska". Mais há mais: o instante em que procuram ao ar livre a dentadura do primeiro, numa sequência de diálogos divertidos, lacónicos, humanos. 

Comovem as conversas entre os dois, sobretudo aquela em que o pai, num bar, conta pormenores da sua vida doméstica e íntima que o conduziram ao desporto viciante de arriscar mais cervejas do que a saúde e a felicidade de um homem podem suportar. 

A revelação dos momentos fundadores de uma biografia que são guardados numa mala a que ninguém, muito menos um filho, terá alguma vez acesso. O velho rezingueiro abre-se perante um descendente que o quer escutar.

Mas outros temas cruzam o filme. A circunstância de o pai ter decidido viajar de Montana até ao Nebraska à procura de um alegado prémio milionário fá-lo estacionar na terra onde nasceu e se fez. É aí que encontra a ganância de um grupo de familiares e amigos que lhe querem sacar esse dinheiro imaginário. 

 

 

 

 



O velho homem umas vezes apercebe-se do que lhe vai acontecendo, outras vai-se distraindo dentro si próprio. Bebe cervejas a mais e, entre os resmungos, topa-se que perdeu a ligação a uma terra que só quer saber da notícia do ricaço que não é nem será.

Há qualquer coisa de "Straight Story", de David Lynch. Qualquer coisa de Clint Eastwoodiano - na resmunguice de alguém sem pachorra para as hesitações do mundo. Mas também o tom das narrativas de Richard Ford sobre uma América que transporta tragédias pessoais e familiares, sem esconder aquilo que é evidenciado nas redondezas do dia-a-dia: das marcas dos carros às latas de cerveja.

Duas qualidades cinematográficas maiores neste filme de Alexander Payne. A fotografia a preto e branco de Phedon Papamichael, capaz de captar a paisagem dos lugares e dos rostos com o rigor e a melancolia por vezes burlesca que ela merece. E a performance de Bruce Dern, astronauta terreno à procura de um sonho que não lhe dará dinheiro mas a possibilidade de um reencontro com as suas lembranças escondidas, com o companheirismo do filho e com uma vitória subtil perante os oportunismos de última hora.

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publicado às 08:45


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