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Aquela altura do ano

por Nuno Costa Santos, em 24.06.14

Começámos a chegar àquela altura do ano em que se torna ainda mais difícil resolver o mais miserável dos assuntos: "Ah, esta semana não pode ser porque a Carla, que é quem trata deste assunto, está de férias". "E se, em vez da Carla, for a Tânia a tratar do assunto?". "A Tânia também está de férias". "E se for a Isilda". "A Isilda também está de férias". "E se for o Zé António?". "O Zé António não pode porque não domina esse assunto". Não me interpretem mal: sou sensível ao direito às férias, até mesmo ao meu. Mas o problema é que, diz-me a memória, no resto do ano não é muito diferente. Quem nos pode tratar do assunto está sempre de férias. Só volta daqui a quinze dias. Um mistério da humanidade.

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publicado às 20:27

Limpa e segura

por Nuno Costa Santos, em 07.05.14

Portugal teve uma saída Evax. Limpa e segura. É assim que é caracterizada aqui no bairro pela Dona Lurdes, sempre com a língua disponível para o comentarismo matinal. Sim, as análises populares, com a sua terminologia própria, deviam ser mais vezes ouvidas. O senhor Alfredo diz que a saída limpa pode ter a ver com a circunstância de “o Durão, agora que quer ser presidente da junta, lavar do assunto as suas mãos”. Dá que meditar.

O Rui Jorge, apesar dos seus 27 anos, já é pensionista. Então porquê? “Porque vivo na pensão do meu tio Zé Júlio”. Não tem orçamento para pagar a cave onde habitava e pediu à família para dar um jeitinho. “Vivo na despensa. Não tem assim muitas condições mas sempre vou trincando uns feijões enlatados ao pequeno-almoço”.

Desempregado há dois anos, contou-me que não teve a mesma sorte que o governo na sua relação com a Júlia. A Júlia exige que para a relação continuar tem de haver uma linha de crédito que permita que possam ir ao domingo às sessões de cinema do Colombo. “Sem isso o namoro vai à falência”.

A Dona Josefina é uma socialista ferrenha, uma ultra. Encontrei-a à saída da farmácia e fez uma análise de António José Seguro. Garante que Seguro vai ser primeiro-ministro do país: “Ele não percebe nada de política mas sabe o nome do meu neto e isso é muito bom”.

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publicado às 20:27

O gafismo dos portugueses

por Nuno Costa Santos, em 15.04.14

Nós, portugueses, temos a paixão das gafes. Não as nossas - as dos outros. Portugueses, claro. Uma gafe, nas televisões ou nos cafés, é matéria para centenas de debates, discussões, insónias, tiroteios. “Já viste o que é que aquele palhaço disse ontem à noite?”. “Já, já. Era encostá-lo à parede e mandar-lhe um balázio nos cornos!”. Se fizermos uma revisão das matérias que marcam as actualidades (em cada manhã há uma), iremos topar que o disparate, o exagero, o delírio verbal é aquilo que mais nos ocupa. 

 

(...)

 

Por que é que isso acontece? Porque cada um de nós, nas nossas vidinhas, nas nossas poltronas, nas nossas assembleias, mede, um a um, os termos que exibe. É isso: vai-se pelas ruas, circula-se pelos corredores, entra-se nos gabinetes e ouve-se sempre a palavra certa, razoável, pensada, repensada, já ensaiada em frente a um espelho lúcido e sem falhas. Nem uma vírgula injusta a mais. Em cada comentário há um equilíbrio nórdico. E quando ocorre um engano vem de imediato o reconhecimento e o pedido de desculpas. A humildade, por aqui, chega a ser comovente. Só somos profissionais da asneira alheia

 

 

(O resto do artigo aqui)

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publicado às 11:20

Venham esses concursos

por Nuno Costa Santos, em 13.04.14

É lamentável, é. Não me torna respeitável nos almoços e nos jantares com amigos actualizados. Muitas séries, mesmo algumas das mais sofisticadas no enredo e na representação, não me agarram tanto como alguns concursos televisivos de cantorias. Admiro, até por vocação e ofício, algumas dessas ficções televisivas contemporâneas mas comovo-me mais com os espectáculos. Sou básico? Com certeza, senhores. 

Também é por causa das performances musicais de rasgo. Também é por causa do divertimento dos personagens do júri – agora, no ‘The Voice Portugal’, o surrealizante Reininho, o puto vaidosão Mickael Carreira, a afirmativíssima Marisa Lis e o herói afro-romântico Anselmo Ralph. Mas é acima de tudo por causa das famílias que acompanham os concorrentes desde a sua freguesia e do seu bairro até ao estúdio onde os meninos exibem o que são capazes de exibir. 

As famílias e os amigos que com eles vibram - choram, gritam, riem-se, abraçam-se. É um país que vem à feira das músicas e que mostra, sem vergonha, aos pulos, a sua fibra emocional. Há de tudo nessas claques que são filmadas em paralelo às actuações da rapaziada: casais rurais gordinhos com 40 anos de casamento e muita esperança na sua Rafaela, namorados surfistas com colares de missangas ao pescoço, mães betas que vão puxar pela filha beta acompanhadas de uma avó menos beta, daquelas que se podem encontrar numa terça de manhã na drogaria, mães, vitimas de violência caseira, que criaram a filha sozinha e sempre incentivaram os talentos da moça para o karaoke.

 

Mais aqui.

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publicado às 22:09

Solidão

por Nuno Costa Santos, em 07.04.14

Passamos a vida a tentar esquecer a solidão que nos marca. Pouco falamos dela. Ou só falamos dela em gabinetes de consultório de psicologia. Há aquelas solidões que enformam uma existência. E aquelas que se abatem sobre uma biografia aparentemente sóbria e gregária. Aquelas que caem como um capítulo inesperado, uma peripécia para a qual não tirámos senha. Quando somos despedimos, quando acabamos de modo abrupto um relacionamento, quando ficamos sem alguém que amamos, quando somos atropelados, quando sucumbimos, num passeio, a uma síncope, quando somos atropelados. Haverá solidão maior do que a daquele que acorda rodeado de estranhos no chão de uma grande cidade? 

 

(continua)

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publicado às 00:07

O Último Golo

por Nuno Costa Santos, em 04.04.14

 

 

Nestes últimos dias tenho espreitado o futebol no café onde escrevo. As televisões transmitem-no a toda a hora. Campeonatos estrangeiros. Levanto a cabeça do portátil. A Roma joga com o Parma. Aos 12 minutos, Gervinho marcou o primeiro, Acquah empatou o jogo três minutos depois e Totti deu nova vantagem à Roma no minuto a seguir. Estamos nesta fase de um filme que é fúria italiana, das mais quentes e combativas. Sim, aqui, neste café, sou de novo o menino que adormecia a inventar, um a um, os lances da minha equipa.

Mas logo chega, com o café e o açúcar, a melancolia. A de saber que, vítima de meniscos castigados, já não poderei jogar à bola – a não ser em inofensivos joguinhos com a filharada nos relvados da urbe. Parece discurso de jogador pro mas foi mesmo assim: a última lesão aconteceu há um ano e meio, por aí. Levou-me a uma consulta hospitalar onde fui tratado com aquela gélida amabilidade com que, hoje, alguns médicos nos vão recebendo nos consultórios. Olhou de longe o joelho e sentenciou, com um humanismo e um rigor científico de impressionar um júri académico: “Isso 'tá mau”.

 

O resto aqui.

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publicado às 16:34

A Coragem da Dúvida

por Nuno Costa Santos, em 04.04.14

Não conheço ninguém em Portugal que tenha dúvidas. Ah, é você. Ok, desculpe. Até agora não conhecia. Ouço muita gente – aqui na rua e no bairro público - a afirmar sentenças claras como uma tarde de Agosto, inequívocas como um regulamento. Quando alguém se prepara para exprimir a sua opinião, fico a olhar-lhe o rosto. Tento espreitar um tremelico de um músculo facial, um sinal físico de indagação, de procura, de questionamento. Nada. O músculo fica sempre esticado. Engatilhado para o disparo. E dispara.

Lembrei-me do assunto depois de ter ouvido uma boa conversa, em ambiente universitário, com o Jacinto Lucas Pires. Sonho com o dia em que um agente político relevante – português ou europeu - tenha a bravura de fazer uma conferência de imprensa para revelar que, no estado babélico que em isto está, tem uma interrogação para revelar, não a exclamação do costume. O instante em que um comentador mande desligar o microfone porque o que lhe vai na alma é uma agonia de pontos de vista que o consomem e não o deixam dormir. O segundo em que, no café, o homem com o cabelo puxado para trás com uma brilhantina anacrónica, estacione o verbo para confessar que não tem nenhuma convicção sobre o árbitro da partida do fim-de-semana seguinte.

 

O resto aqui.

 

 

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publicado às 00:16

O Caos Como Ele é

por Nuno Costa Santos, em 02.04.14

Aplaudimos séries, telenovelas e filmes nos quais o ser humano é colocado em situações-limite mas depois ficamos perplexos quando acontece algo do género nas nossas vidas. “Mas o que é isto que me está a acontecer?”, perguntamos a nós próprios, ao lavarmos os dentes defronte de um espelho baço. E o espelho parece responder, abrindo uma clareira inesperada: “O que te está a acontecer é o que já viste na TV antes de ires dormir debaixo de um edredão incapaz de te proteger do caos da vida.” 

É como se achássemos que há dois mundos: o mundo da tela, do cinema ou caseira, e a nossa biografia, blindada a qualquer peripécia que ponha em causa uma caminhada à prova dos abalos sísmicos. A vida como ela é, para citar o brasileiro Nelson Rodrigues, companheiro de prazeres e agruras vários, não é um planeta puro e idílico. É a mesma desordem que alguma da melhor ficção tenta imitar. Por mais que nos esqueçamos dessa evidência, um despedimento brusco, uma paixão sem notificação prévia, um gesto inimaginável não acontecem só naquelas histórias descritas no calendário televisivo. Também fazem parte das sinopses disto de existir.

 

(O resto aqui. Obrigado sou eu).

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publicado às 12:53

como é que estão essas unhas?

por Nuno Costa Santos, em 01.04.14

 

 

No liceu houve uma professora que me ensinou a não roer as unhas. Ensinamento decisivo. De quando em vez ia verificar se as tinha roído, se as tinha perturbado com os meus dentes de adolescente ansioso. Levei tempo a perceber: ela estava a ensinar-me a perder o medo. Deixei de ter aulas com essa professora e mais tarde, pouco a pouco, no pátio, em casa, voltei ao vício. 

Quero saber como é que andam as unhas dos meus compatriotas. Vá, mostrem-mas. Quero saber como é que andam de aflições, de agonias, de ânsias. Não, não quero mais um estudo certificado por uma universidade de prestígio qualquer. Quero ver as unhas mesmo. As garras de cada um. Averiguar, através da ponta dos dedos, qual o grau de apreensão do país.

 

(O resto aqui s.f.f)

 

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publicado às 17:18

O Cinismo Merece Levar um Par de Estalos

por Nuno Costa Santos, em 31.03.14

Abomino o cinismo, tema de capa do número de Março do ‘Le Magazine Littéraire’, que nos revela quem foram os seus antepassados intelectuais e filosóficos. Ainda percebo a prudência e o cepticismo. Agora o cinismo, cada vez mais tolerado nas esquinas, é algo que devia ser alvo de uma desinfestação. De uma descinização. Devíamos ser cínicos em relação ao cinismo.


O português não é nem nunca foi cínico. No máximo é céptico. Duvida. É do tipo “deixa cá ver”. Do género estar encostado ao balcão do café à espera, desconfiado. É mais chatinho do que cínico. Ao princípio manda abaixo mas é capaz de aplaudir quando assiste a um curto avanço, a uma conquista.

O cinismo é uma doença sem nacionalidade, cada vez mais disseminada. O cínico é aquele rapaz que começa a sua carreira no pátio do liceu. Manda bocas a todos os progressos escolares e emocionais de quem vai passando com a mochila às costas e, quando Nelson Mandela foi libertado, comentou, de cigarrinho no canto da boca e vinagre na voz: “Agora é que ele vai partir a boca aos outros todos”. Este é o cínico. 

 

(O resto aqui).

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publicado às 16:53


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