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Porto do Mistério do Norte

por Nuno Costa Santos, em 21.02.16

Homem da medicina, Dimas Simas Lopes cumpre uma tradição de médicos de qualidade e sensibilidade humanas e criativas: é um artista. Homem das artes, plásticas e literárias. Este livro é o segundo da sua autoria. O primeiro foi “Sonata para um Viajante” (Calendário de Letras, 2012). Como disse reveladoramente numa entrevista, pôde com esse livro voltar a ser menino.
Dimas é também, permitam-me a facilidade, um homem do coração. Cardiologista, sabe que a medicina não é suficiente para pesquisar tudo o que encerra o coração humano.
O Porto do Mistério do Norte que aparece neste livro já vinha do primeiro. Em muito se assemelha aos seus Biscoitos (Praia da Vitória, ilha Terceira): tem um porto baleeiro e de pesca, é um mistério porque as lavas negras assim o tornam e do norte porque é para esse ponto que está virado.

Antes de mais este é um literário gesto sobre a identidade. Pessoal, humana, cultural, histórica. Esta passagem situa e esclarece: “Foram séculos de palheiros e tectos de colmo e pano da terra para vestir e pés descalços e pés com alparcatas, até aos anos 60 do século XX”. É sublinhado um dado histórico que convém ser lembrado a quem muito teve quando nasceu: a luz, até aos 70, não existia na maioria das zonas rurais dos Açores. E é recordada a “escravatura” e os muitos que fugiram das terras açorianas em direcção a uma desejada dignidade.

É um volume que consagra – fixa - uma determinada terra insular num determinado tempo. De um modo muito próprio, feito do cruzamento de géneros literários. Este é um livro-narrativa mas também um livro-ensaio. Tanto se faz de múltiplas histórias contadas a várias vozes como se desenvolve como reflexão do que passou um povo e do que vive hoje. Povo que não é só o do local – o do Porto – mas também é o do mundo.
As histórias contadas têm sempre o mar ao fundo. Com pescadores e pescarias, caça à baleia, embarcações. E frases certeiras sobre o ambiente que se vive na insula: “A medida da ilha é o mar que se vê da ilha”.

E se este é um livro que evoca um tempo baleeiro e os seus protagonistas, é, sob o ponto de vista da forma como se desenrola, um livro marítimo. Tanto temos momentos calmos e serenamente líricos como por vezes temos vagas que metem respeito.

Há uma corrente narrativa que tudo traz consigo, um fluxo que traz memórias, nomes pitorescos – Chico da Areia, Choco, Mija vinagre, Orelha murcha -, evocações de matanças de porco, filarmónicas, elementos naturais como o cedro e o pau branco, a necessidade de apelar ao divino, expressões muito açorianas como “são danados para comer estes melros” e “era de consolar a vida de um homem”, comidas como torresmos e bolinhos de abóbora. Fundo e forma revolvem-se como as areias na zona de rebentação. Um modo de contar muito fluente, revelador de leituras muitas e de uma mão segura e talentosa.

A certa altura (pág.19) o autor situa o leitor que ainda se habitua a nadar neste mar alto: “O meu nome é Tónio, vivo no Porto do Mistério do Norte, mais ou menos no meio do mundo”. É a Tónio que se contam as histórias. Constituindo-se como personagem fundamental, também pode ser cada um dos leitores que partilham do sangue de referências que percorre este livro.
A sanguínea metáfora não é gratuita. Estamos na presença de um homem de coração e do coração, muito para além do ofício. É ele que a certa altura escreve: “Pelo coração passa inteira a nossa vida”. Tudo se complica no caminhar dos dias, segundo o autor, quando se tem mais olhos do que barriga, quando se é obrigado a ir para uma guerra sem sentido (no caso na Guiné), quando os pobres só são lembrados em tempo de eleições.
O humor também passa por aqui. “Porto do Mistério do Norte” é uma viagem ao coração do humano e no coração humano há composições graves (e refira-se de passagem que o autor é um melómano devoto) e outras mais leves e primaveris. Um pai, habituado à vida marítima, na altura em que segue para o continente europeu, assume a sua funda segurança desta forma pitoresca: “Se nunca me perdi nas ruas do mar, não me ia perder

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em Paris”.

Há muita vida física – no sentido, se quisermos, muscular do termo - nesta narrativa. Um universo que tanto se faz do combate com os elementos naturais, nomeadamente na baleação, como da simples “pancadaria” entre os homens da terra e alguns americanos da Base das Lajes. E há também um sentimento continuado e aprofundado de regresso à terra, de retorno aos cultivos mais primordiais. O cultivo da vinha, por exemplo. A produção de vinho. É essa a saída de um universo cada vez disperso e desatento onde subsiste a vontade de poder e de poderes.

E há elogios que se distribuem pelos parágrafos. O elogio ao feminino – há um terno cuidado quando são nomeadas as mulheres. Aliás, “Porto do Mistério do Norte” termina com a palavra “mulher”. E antes há um melro “doido para namorar”, fazendo lembrar no melhor dos sentidos o atrevimento verbal de outro autor nascido no arquipélago açoriano, Pedro da Silveira. Um elogio à herança que se recebe dos antigos – pai e avô. E, por fim, também um elogio vasto e merecido ao que fundamenta esta colheita rara. A gratidão para com a arte como prática livre de condicionamentos. “Tudo nos podem tirar, só não conseguem roubar a nossa capacidade de fantasia”.

Texto de apresentação de “Porto do Mistério do Norte, de Dimas Simas Lopes (Companhia das Ilhas, 2015)

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publicado às 00:43



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