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Paul

por Nuno Costa Santos, em 25.03.15

 

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O Paul morreu há umas semanas. O Paul Pacheco.  O Paul era uma das pessoas que aceitaram contar a sua história em palco numa peça sobre deportação chamada “I Don´t Belong Here”. Conhecemo-lo no mês de Agosto de 2013.  Foi em Ponta Delgada, na casa de uma associação que apoia homens e mulheres ainda à procura de um trilho para os seus corações e hábitos. Já não me lembro bem de como é que aceitou contar-nos a sua experiência. Tinha acabado de chegar.  Não falava português. Mãos nos bolsos. Chinelos, meias brancas, cabelo apanhado por um carrapito.

 

 Há pessoas que são diálogo. Paul era monólogo. Talento de falar e ser ouvido. Em palco contava uma história. A história do dia em que, por alturas do liceu em Toronto, havia sido convidado para dançar por uma rapariga. Ele trazia para o momento todos os pormenores do baile, o que sentiu, o que sentia passados tantos anos, a sua fragilidade, a certeza da rapariga. E como tinha trazido para a idade adulta esse medo de menino.  A rapariga estava segura do seu gesto de o desafiar. Ele paralisara com aquele movimento de segurança que nunca imaginaria ter.  Ainda se mostrava perplexo como um pré-adolescente a descobrir a paixão.

 

Contava a história com a braveza dos encolhidos.  Prendendo o espectador de iphone ligado através da capacidade de narrar que poucos têm. Permitia-se fazer pausas longas, de quem sabe que o público, espectadores ou ouvintes de rua, não vai espreitar os likes que caíram na conta.

 

Era um homem forte – teso, como se diz nos Açores - e ansioso. Pensava muito sobre as coisas e o seu pensamento por vezes parecia blindado. Também era dado a zangas. Enfurecia-se com quem o atendia ao balcão. Desconfiava. Desconfiava dos funcionários como se os funcionários quisessem sabotar a sua ficha clínica. Desconfiava do país dos pais, da forma como isto funciona. Desconfiava de muitos intentos humanos. Havia nele a desconfiança do violentado.

 

Também se sabia rir. Também se divertia e usava o sentido de humor quando se esquecia do medo. Contava episódios divertidos. Meteu-se comigo, casado, pai de bebé, quando me viu ficar até tarde no teatro depois da estreia no Maria Matos. Talvez se recordasse do tempo em que teve uma vida familar. Anos em que viveu com uma mulher que tinha um filho. Gostou da experiência. Era feliz quando recordava esses momentos de aconchego.

 

O Paul morreu. Ficam as imagens do seu sorriso de rapaz, do seu olhar primeiro desconfiado, depois terno, depois desconfiado, depois terno outra vez. Do momento em que foi a casa buscar uma autobiografia de Neil Young porque lhe perguntei se gostava do cantor canadiano, de um jogo de bowling nas Portas do Mar, do seu frenesim de expressões e gestos durante uma partida de futebol entre os EUA e o Canadá, da sua decisão silenciosa, numa apresentação em Montemor, de fazer a sua performance em português (imperceptível) porque soube que havia alguém no público que não dominava o inglês, da sua figura estendida numa cama do Hospital de Santa Maria e feliz por saber que alguém dos jornais havia elogiado a peça. Dos ensaios de uma peça de Beckett que acabou por não entrar no espectáculo. Já não era o homem de carrapito, chinelos e meias brancas. O cabelo estava curto, vestia umas calças de corte clássico, uma camisa aos quadrados de homem normativo, uns sapatos comuns. No rosto, uns óculos que lhe davam a aparência de intelectual. O seu olhar sempre a procurar a angústia.

 

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Paul Pacheco era um homem religioso. Tinha ficado nele a testemunha de jeová que os pais eram. Citava a Bíblia. O pai havia-lhe ensinado que não devia prestar culto a símbolos não religiosos – e também tinha sido por isso que não respondera às perguntas sobre cultura canadiana dos serviços de emigração. E por causa do seu feitio, que sabia difícil. Não se refugiava na política quando se olhava ao espelho.

 

O Paul morreu de um cancro na sequência de uma hepatite de anos. Longe de casa, longe das suas ruas,  longe do seu país. Não é fácil identificar o lugar exacto aonde pertencia  –  ele que iniciara cedo numa vida de drogas e errâncias várias - mas a sua casa não era de todo a ilha de São Miguel nem o quarto onde se demorava, ainda espantado com os “amigos” que uma ligação recente ao facebook lhe sugeriam. Contava que a sua família deixou de habitar a zona onde vivem portugueses para ir viver noutro lado da cidade e ele passou a sentir racismo sobre a sua pele escura. No pátio do liceu virtual toda a gente queria ser sua amiga.

 

Textos longos só na voz de quem os sabe narrar. Este vai-se demorando talvez para não ser presa de um final fácil.  Grande é  a tentação de dizer: ele agora está no céu, a olhar por todos nós, com o Deus que nomeava todos os dias. Melhor ficar por um remate menos abstracto. A forma desabrida e talentosa como se entregou a “I Don´t Belong Here” ficou na lembrança de muitas pessoas e sensibilizou-as para uma tragédia que muitos vivem e poucos conhecem.  A sua dor física foi apesar de tudo veloz para o que poderia ter sido. São duas certezas. Suficientemente fortes para encontrar um sentido.

 

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 (Imagens: Paulo Abreu)

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publicado às 21:50



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