Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O Sumo e o Nada

por Nuno Costa Santos, em 29.01.14

“Punk Rock”, peça a que assisti ontem no Teatro da Politécnica, com a sala cheia e justo entusiasmo, é afinal de contas sobre o quê? Várias coisas, como a melhor arte. Antes de mais é uma peça sobre esse eterno tema que é a decisiva interferência que impede a comunicação entre os homens, a raiva que se liberta nos ambientes inanes e a certeza de que nada dura e por isso nada importa. E é também uma peça sobre um grupo de adolescentes, barricado numa escola privada, que detesta a palavra ‘devias’, para citar uma das personagens. Que vai tolerando o bullying até ao momento em que este começa a ser monstruoso. E que jura que só vai ter filhos aos 42 anos para depois pagar a alguém para tomar conta deles.

Simon Stephens, dramaturgo inglês nascido em Stockport, grande Manchester, foi a dado momento incluído à força na “In-Yer-Face Generation” - aquela que, nos anos 90, escreveu um teatro sujo, agressivo, com violência, sexo, humilhação em palco, e contou com uma protagonista maior: Sarah Kane. Stephens não se vê a si próprio como fazendo parte do gang. Assume influências do teatro grego, alega interessar-se pelas contradições do humano diante das brutalidade disto de estar vivo e aposta numa agilidade rara nos diálogos. E, ah, cruza tudo isso com a cultura pop que consumiu enquanto crescia (é fã de Stone Roses e “Punk Rock” traz como separadores temas dos Sonic Youth, White Stripes, Stooges e Mudhoney). 

Mas o teatro que pratica é tão punk como o rock do título da peça – dá um pontapé com uma doc martens nas expectativas do espectador brando e adormecido. Um gesto que, mais do que destruir, é humano, humanista. Quer despertar. Não deixa de ser curioso saber que um dos assumidos tópicos do seu trabalho é o familiar. Diz em entrevistas: “Escrevo sobre famílias e acho que toda a gente, mesmo a pessoa mais isolada e individual, pode reconhecer o contexto de família e relacionar-se com este”.

Depois de conhecer as suas palavras, explode uma pergunta no final do enredo: mas que famílias têm esses moços? Que aconchego têm estes rapazes e raparigas que nomeiam o amor como quem nomeia um sumo com uma nova combinação de sabores? Não sei. Ninguém sabe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 21:57



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D