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O Casal Misto

por Nuno Costa Santos, em 25.01.14

Conto-vos o meu momento de ingenuidade social. Aconteceu há doze, treze anos, em Vila Nova de Milfontes, na Praia do Malhão. Passava umas férias com amigos, comparsas de um Verão feliz (“É triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”, escreveu Ruy Belo). Um Verão eterno assim ao estilo juvenil daquele que foi musicado pelos Capitães d’Areia. Éramos um dos grupos de animais sonolentos enrolados ao sol. À nossa volta, figuras como Fausto, Manuel Villaverde Cabral e Luís Nobre Guedes e uma data de personagens com um porte, um modo de falar e um corte de cabelo que os sociólogos de café classificam como “betos”. O bar aonde íamos à noite funcionava como uma espécie de bazar diplomático em versão bronzeada.

Levantei a crina e topei ao longe um casal, como se costuma dizer nas peças de sociedade, “misto” – um branco e uma preta (ou uma negra, conforme a sensibilidade). Ela era linda como uma modelo senegalesa e atravessava a areia com a elegância de uma pantera indiferente aos murmúrios da selva. Ele era alto e míope como um Pedro Paixão que resolveu descer aos areais. Um casal misto naquele território pouco misto motivou na minha pessoa o comentário de quem avista a possibilidade de diferença num lugar uniformizado. Gritei com tosca felicidade: “Isto da Praia do Malhão é um sítio muito progressista!”. Houve riso entre os meus - e possivelmente entre os outros. E, já me conhecem, mágoa no meu coração.

Uns segundinhos depois um dos meus amigos, frequente no território, explicou a causa da galhofa. A moça senegalesa estava ali para tratar de um bebé - um nobre bebé, de certezinha. Era a Naomi Campbel do babysitting. Cumpria o seu horário de trabalho como funcionária de uma família que podia pagar o luxo. A amorosa parceira do cidadão devia estar naquele instante a fazer uma carreirinha com o Deus Pinheiro. Ainda hoje nos rimos desse episódio que não enriquece um currículo de cínico, obrigatório para a sobrevivência dos dias. Mas, ao recordá-lo, pergunto se não terá querido dizer alguma coisa. É que no meu país haver casais entre pessoas de diferentes raças ainda é motivo de reportagem. Manuel S. Fonseca, quando Eusébio morreu, fez o lembrete decisivo: "eu tenho muito orgulho em que o melhor jogador português seja um africano, raio de um ex-império que nem um deputado negro consegue ter". Hei-de voltar a Vila Nova para actualizar o meu grau de ingenuidade.

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publicado às 20:04



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