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J’aime La Vie na Culturgest

por Nuno Costa Santos, em 15.02.15

“Eurovision”, que vi na Culturgest, é um espectáculo que se mete com a intelectualização que o espectador médio da Culturgest faz dos espectáculos a que assiste. Toda a conversa do teatro “pós-moderno”, da “intertextualidade”, do tom “paródico” é justamente aquilo que ouve nos corredores do edifício depois de terminados os shows. Ou seja: “Eurovision” faz rir quem julga que por um momento também olha o teatro como Pedro Zegre Penim – e o seu cúmplice em cena, André e. Teodósio – o olham. Quem está mais próximo do esquema crítico do teorizador João Barrento, alvo de sátira. Em si já é muito divertido. Ver dançar alguém ao som de “J’Aime La Vie” no território das “artes performáticas contemporâneas” também é qualquer coisa. E um actor assumir que bebe um copo de água em palco (que é só um copo de água e não uma metáfora) porque tem sede é escandalosamente saudável.

Foi a única peça a que assisti da trilogia (posso, senhores, chamá-la trilogia?) “Eurovision”, “Israel” e “Tear Gas”. E dei-me por satisfeito. Porque é libertador, porque se está nas tintas, porque diverte, porque não se justifica, porque no fim assume que não sabe para que é que aquilo tudo serve. Porque me faz pensar nalguns comentários que já ouvi em relação a um texto que escrevi para palco: “é muito televisivo”. Para usar esse ângulo, “Eurovision” é tão televisivo que até traz o ambiente dos festivais da canção para o terreno de jogo. Não me faz sentir tão sozinho. Obrigado. Mandem nib para fazer a transferência.

 

Isso leva-me para uma questão que me ponho de vez em quando: como é que alguém com 40 anos pode criar hoje – nas escritas, nas representações, nas artes em geral – fingindo que não cresceu a ver televisão e a jogar ZX Spectrum? Como se viesse de um mundo de abstracção só com referências cultíssimas. Recusar é uma coisa, fingir que nunca se fez um zapping antes de ir dormir é outra.

 

Claro que George Steiner e a sua ideia de Europa estão lá – e muitas outras referências cultas e que são jogadas em nome de uma procura séria. E que o texto começa por ser uma digressão virtuosa por várias línguas e um ensaio sobre o que é estar em palco - assumir o papel de clown a servir sabe-se lá o quê. Mas todas essas tentativas convivem com uma atitude distante do teatralmente correcto que se julga incorrecto.

 

Toda a gente que trabalha em teatro já ouviu observações como “não uses vídeo em palco porque o vídeo já está muito visto”, “não faças espectáculos de uma hora porque é mais próprio do entretenimento”. Esse analítico palavreado é questionado e gozado em nome de um sempre pertinente “porque não?”.

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publicado às 21:21



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