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Irmãos

por Nuno Costa Santos, em 14.03.14


Às vezes acontece-nos isso: esquecermo-nos por um instante da nossa biografia, da nossa idade, da nossa artilharia, da nossa ganga, dos nossos medos, dos nossos ressentimentos. William Faulkner, em “A Fábula”, com o pretexto da Primeira Grande Guerra, escreveu palavras maiores sobre essa possibilidade da condição humana: "Se todos nós, o inteiro batalhão, pelo menos um batalhão, deixar ascarabinas e as granadas e tudo para trás de nós na trincheira: trepar apenas de mãos nuas por cima do parapeito e atravessar o arame farpado e depois caminharmos apenas de mãos nuas, não de mãos erguidas para nos rendermos mas apenas abertas para mostrar que não temos nada para magoar, para ferir ninguém; não a correr, a tropeçar: apenas a avançar como homens livres que não querem nada excepto voltarem para casa e enfiarem-se em roupa limpa e trabalharem e beberem um pouco de cerveja à noite e conversarem e depois deitarem-se e dormirem e não terem medo”.

É isso. Ficamos apenas homens. Homens sem bilhetes de identidade, sem contas bancárias, sem números de segurança social, sem estatuto social e profissional, sem códigos de multibanco, sem dívidas. Homens apenas. Aconteceu-me no outro dia, durante um jogo de bowling, que arrisquei pela primeira vez. Joguei-o com conhecidos com quem estamos (eu e uma data de gente) a trabalhar num projecto sobre a experiência da deportação. À tarde havíamos feito um exercício que passava por reproduzir em palco a última ceia a partir do quadro de da Vinci. Cada um, crentes e não crentes, subiu ao palco em silêncio e colocou-se na posição ou do profeta ou dos apóstolos.

Agora percebo que aquele jogo de bowling também foi a nossa ceia, luminosa, sem sombra e sem deslealdade a cobrir a toalha. Uma partilha. A quimera de Faulkner. Éramos irmãos à volta de uma mesa, esquecidos das nossas diferenças, das guerras do mundo, dos preconceitos que as circunstâncias querem impor a uns e a uns outros. Irmãos aproximados por um jogo. Apoiámo-nos, gozámos uns com os outros, fizemos brindes com copos de cerveja de plástico. 


Foi uma ceia, sim. Que não seja a última.

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publicado às 08:00



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