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Heroísmos não, por favor

por Nuno Costa Santos, em 01.04.15

No Expresso. O texto de Clara Ferreira Alves sobre Herberto Helder – emotivo, grato, zangado com a apropriação geral e capaz também de tocar no essencial de uma poesia que corria muitos riscos e estava sempre “à beira do precipício”. O de Pedro Mexia, também pessoal, também agradecido, com alguns pontos que merecem ser questionados. O texto de Luís Pedro Nunes, que acompanha o ensaio fotográfico. Surpreendente. Por revelar que Herberto Helder era um leitor tão omnívoro que até lia revistas cor de rosa. É uma notícia, sim, num homem que se julgava muito fora disto.

 

Um costume. Faltou à imprensa portuguesa um artigo sobre os cinzentos do escritor e do homem. Um perfil - é a referência que tenho - à inglesa. Em que se destacam virtudes e defeitos, gestos maiores e feitios, textos certeiros e tiros ao lado. Artigos sem reverências extremas. Dando o mérito a um gigante da sua língua mas colocando-lhe reticências nalguns atalhos.

 

Admito que grande parte da sua poesia não me fala, reconhecendo-a como sendo, nos seus melhores momentos, de uma casta superior. Vocação pessoal, sim. Prefiro quando a arte concilia o grandioso e o mínimo. Tenho a "Poesia Toda" aqui ao lado, livro que comprei - vejo agora - num melancólico mês de Fevereiro de 1994. Do livro só me tocam verdadeiramente os poemas iniciais. Versos como estes: "Não sei como dizer-te que minha voz te procura". O poema "Aos Amigos". A muitos outros - que agora reli - faço perguntas. Quando o poeta escreve "dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra" preferia saber o nome dessa mulher e qual o autocarro que costuma apanhar. Questão de gosto: na arte pouco me comove a abstracção sem o contraponto do concreto. E dispenso o adjectivo jovem, embora também o pratique.

 

Pedro Mexia escreve que a sua poesia não era referencial nem abstracta. Se a poesia de Herberto não é abstracta – não tem uma raiz abstracta - que poesia o será? "Não se pode tocar na dança" . Que dança é essa? "Alguém falava: sangue, tempo". O sangue de quem, em que altura? O objectivo é o de criar uma linguagem nova, um território outro, que a maior parte das vezes parte do geral, do abstracto, do absoluto. E onde a palavra “mundo” é muitas vezes repetida.

 

Tem-se falado da morte de um "homem superior". E é sempre referido o episódio do Prémio Pessoa. De ter querido passá-lo a outro e de não ter aceitado o dinheiro. É muito raro e revelador, sim. Um gesto maior. Já o não querer aparecer e dar entrevistas é algo não me parece suficiente para merecer palmas de todos. Foi um princípio de recato. Respeitável. Mas há escritores que dão grandes entrevistas (que acrescentam ao que escrevem) e não é por as terem dado que os tornou menores nem "vendidos". Nem transforma os jornalistas em funcionários ao serviço da sociedade do espectáculo. Gostaria de ter lido uma grande entrevista de Herberto Helder.

 

Do homem, tal como o Pedro Mexia, sei o que se fui sabendo por amigos que com ele se cruzaram. Histórias longe do heroísmo. Episódios muito humanos, nossos. Que complementam - por serem contrários - a grandeza do gesto na altura do prémio. Herberto frequentava cafés onde se praticava aquilo que pomposamente se classifica de “tertúlias”. Individualista, secreto, não era alheio ao fenómeno de grupo. Às cumplicidades. Tinha as suas coisas, como se costuma dizer.

 

Também, por causa de algumas pesquisas, soube de algumas amizades com autores cujo rasto biográfico procurei. Como a que teve com Fernando Assis Pacheco. Ainda me lembro do momento em que a Rosarinho ligou a Herberto para lhe pedir autorização para publicar na crónica biográfica um excerto de uma carta a Assis e de Herberto ter dito sem hesitações que sim. E com o excelentíssimo prosador João Alfacinha da Silva, aliás, Alface, de quem foi companheiro de ofício.

 

O filho Daniel disse no "Eixo do Mal" para não tratarem o pai como uma estátua. Com unanimismo. Já estão a fazê-lo. Tratemos Herberto como ele merece. No seu fogo, no seu talento e nas suas contradições.

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publicado às 22:19



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