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Ford Ácido

por Nuno Costa Santos, em 09.02.14

Tenho transportado na mochila o romance "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo (O Lado Esquerdo Editora). Além de trazer uma artilharia literária potente, dá sempre jeito quando vou ter com figuras que não me inspiram a mais luminosa das simpatias. Mais do que as histórias, as viagens – pela Roménia, pelo Vietname - e as personagens, ficou-me a energia do tom do livro, que não encontro com tanta frequência na novíssima literatura portuguesa: um fulgor descomplexado, uma vocação para a frase crua de efeito satírico, uma especulação de cronista livre,
uma mundana deambulação sem sinal de parábola.

Vejo aqui uma influência de alguma literatura americana, no sentido mais coloquial e sem berloques do termo (a epígrafe é de Philipp Meyer, autor de "Ferrugem Americana"). Fala-se do regresso à terra, da vida numa pequena cidade que quer ser maior do que é, de políticos que contratam bloggers para escreverem comentários semanais, da bancarrota de países e das relações, de presidentes de câmara sem dimensão, das mamas da Mafalda, a funcionária da biblioteca. E de bebedeiras. Vocês sabem que sou pelas frases, mesmo tendo a consciência de que há romances maiores que as dispensam. Quando as há, colecciono-as. Guardei algumas, de uma estirpe literariamente incorrecta, no masculino e no feminino:

- "No que concerne à líbido, os homens tendem a ser trolhas na hora de a exprimir".

- "Pensei ingenuamente que uma vida difícil tirava o ânimo da cópula, mas estava-me a esquecer da taxa de natalidade nos países do terceiro mundo".

- "Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável".

- "O teatro impúdico e repugnante da intimidade alheia".

- "Creio que o beijei mesmo como quem esmurra, com igual raiva, igual necessidade de ferir, de causar sofrimento, de humilhar, de vencer, ficar por cima”.

- “Que porra sabemos nós do que pensávamos e sentíamos na adolescência?”.


Existe mais concisa acidez em “Os Idiotas” – com referências sem interlúdios à cultura pop, a filmes com George Clooney sobre despedimentos, aos AC/DC e ao "Creep" dos doutores Radiohead. Em cada passo sente-se uma voz vigiada, sempre disposta a sabotar o que registou uma linha antes, que se deixa transportar num Ford Capri 1300 de 1972, o mesmo que figura no desenho bem sacado da capa.

 

 

 

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publicado às 22:05



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