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Eduardo Paz Ferreira

por Nuno Costa Santos, em 29.06.14
A Anabela Mota Ribeiro fez-lhe uma grande entrevista para o Jornal de Negócios em 2011. Eduardo Paz Ferreira. Professor universitário (de Finanças Públicas), advogado. Ex-jornalista do República (mais tarde convidado para director de informação da RTP; cargo que recusa a favor da carreira académica), cidadão que recupera para a universidade as causas de abertura, reflexão e empenhamento. 

Açoriano apegado e nostálgico, cultor de um humor finíssimo, adepto das artes, em especial da arte cinematográfica. Homem grato - por exemplo, a Medeiros Ferreira, seu mestre, e à mulher, Francisca van Dunem, procuradora. E - permitam-me a nota pessoal - primo de um primo meu, o psiquiatra Carlos Eduardo Paz Ferreira, homem que nos deixa tantas saudades pelo seu humanismo e pela sua curiosidade para lá de todas as geografias (um dia saberei escrever sobre ele).

Nas respostas a esta entrevista que o Eduardo Paz Ferreira deu à Anabela estão alguns dos motivos pelos quais o convidei para estar na apresentação do livro "Vou Emigrar para o Meu País". Aceitou. Um privilégio.

"Foi uma grande coincidência que o Medeiros Ferreira também gostasse de discutir futebol. Ele tinha uma atitude impressionante, era a negação de tudo o que eu pensava que era um intelectual. Achava que ser um intelectual era ser muito sisudo, muito chato, não ir a festas, não dançar, não namorar. Imagens de épocas já remotas. O Medeiros Ferreira só queria festas, namorar meninas bonitas, divertir-se. Ele é que tinha razão. Acabou por me passar algum desse espírito lúdico. 

(...)

Os Açores eram marcados por uma grande pobreza. A imagem mais chocante que tenho é a dos trabalhadores rurais que ficavam parados ao pé das igrejas; as pessoas que precisavam de um trabalhador iam lá recrutá-los, ao dia. A comida deles era um pão de milho com pimenta da terra em cima, no máximo com uma sardinha ou um carapau. Ou batatas cozidas com pimenta. Estou a falar de um período nos anos 60 em que as coisas tinham melhorado, já tinha havido muita emigração.

(...)

Portarmo-nos bem é um pressuposto, mas temos mais obrigações com a sociedade. Como qualquer português, tendo a ser muito crítico de certas pessoas que actuam na esfera política, ou mesmo profissional, e uso palavras duras. A [minha mulher] Francisca diz-me: 'Não tens legitimidade para criticar porque não fizeste este percurso, não tentaste isto. Só podias criticar se tivesses tido a coragem que ele teve'. É um raciocínio muito bom e muito certo. Vem de uma pessoa – mas sou suspeito a falar dela – cuja percepção da vida e do mundo é extraordinária e iluminante.

(...)

Pertenço a uma geração que lidou muito mal com o sucesso. Os meus heróis favoritos, seja no cinema, seja na literatura, são mais os losers do que os winners . Há uns tempos, uma pessoa procurou-me para intervir junto de outra pessoa mais jovem: “O Sr. Dr., que é um homem de sucesso…”, e eu disse: “Isso é a pior coisa que me podem dizer. Quando quero fazer auto-ironia digo que sou um homem de sucesso.


(...)

No meu escritório recebo muitos pedidos de estágios, e quase invariavelmente a conversa é: “Sou uma pessoa ambiciosa, estou determinada a subir na vida, farei tudo o que é preciso para ter sucesso”. Nunca seleccionarei uma pessoa que me escreve isto. Mas escrevem isto porque foram formatados neste modelo. Há aqui uma linha muito fina entre o que é a ambição legítima e o que é a ambição medíocre.

Quero no meu escritório alguém que saiba trabalhar, que saiba de Direito, mas com quem possa falar de cinema, trocar impressões sobre livros.

(...)

Toda a utilidade que a universidade pode ter é justamente o diálogo com a sociedade. A grande dificuldade é explicar aos meus alunos como é que é possível que a cadeira que dou, Finanças Públicas, seja uma cadeira de cidadania. Quero que percebam os mecanismos, porque é que pagamos impostos, que direitos temos enquanto pagadores de impostos. É uma luta um pouco perdida. Mas não pode ser, vou continuar.

(...)

Tenho uma melancolia doentia por tudo o que desapareceu. Na Avenida da Liberdade, no Paladium, lembro-me das salas de bilhar. O meu café era o Granfina, que ainda existe, mas não entro lá há 20 anos (está descaracterizado). Quando penso nessas pessoas que iam à Granfina, penso: 'O que é que fizeram com aquilo em que acreditavam?'. Porque é que não houve a capacidade de ter outras referências e outros valores? 

(...)

Perdi o meu pai quando ele tinha 57 anos e a minha mãe quando ela tinha 60 anos. Ainda hoje sou completamente órfão. Tenho sempre a sensação, que racionalmente posso dizer que é falsa, que não fui capaz de os salvar. Morreram com doenças, mas tenho sempre essa sensação. 

Quando o meu pai morre já vivia em Lisboa há uns tempos, e eu passava muitas horas com ele. Íamos ao Rossio, ao Nicola, os tais sítios da nostalgia. Tenho uma saudade quase absurda da Lisboa boémia que Fernando Lopes retrata no “Belarmino”, que já não conheci bem. Mas conheci bem o Bolero, ao pé do Martim Moniz, onde havia dois acordeonistas cegos a tocar tango. Era uma coisa felliniana. O velho Ritz. Essa noite estranha de Lisboa".

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publicado às 14:20



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