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Dois cronistas

por Nuno Costa Santos, em 23.02.16

Casei os livros de crónicas de João Pereira Coutinho, “Vamos ao Que Interessa” (Dom Quixote, 2015) e “Caviar é uma Ova”, de Gregorio Duvivier (Tinta da China, 2015). Celebrei este casamento literário à revelia dos autores. Os livros já não vivem um sem um outro. Vou alternando a leitura das crónicas – em casa, no café, no metro, nas idas à oficina, na manicura. Ora leio uma crónica do João, ora leio uma do Gregorio. E sinto-me completo, sacerdote agradecido por tanto gozo que me têm dado os textos dos dois.

Dir-me-ão: são diferentes os cronistas, vêm de uma tradição diversa, pensam de forma oposta, um é conservador, o outro é progressista, vestem-se de forma contrastante. Isso nem sempre é verdade – ambos têm a noção da concisão leve do texto cronístico, ambos mantêm obsessões (neuroses obrigatórias), ambos publicam no mesmo jornal, ambos escrevem o que lhes apetece (mandamento de qualquer cronista que sabe o que faz), ambos vestem calças e camisa e mudam de roupa interior quando acham pertinente.

Tenho aqui o livro do João. Já passei a demanda contra o politicamente correcto, a defesa obsessiva e sem concessões da liberdade, a desconfiança do “racionalismo” dos “estudos”, a nostalgia epistolar, o riso sobre o ego artístico que se concentra mais no ressentimento do que na obra, os diários de Oxford.

Estacionei na parte das crónicas culturais, “Prazer em Conhecer”. Admito a banalidade da expressão: estou paralisado – eu que já conhecia este registo do João Peireira Coutinho de outros carnavais escritos. E de muitas conversas.
Que saudades tinha de ler alguém a escrever assim sobre cultura. Desde textos a conversar, entre elogios e questões, com o livro de Mario Vargas Llosa, “A Civilização do Espectáculo” (fazendo notar que nessa era do ruído não há que desligar o rádio mas procurar as melhores sintonias), a empatizar com a lúcida auto-depreciação de Thomas Bernhard na hora da vitória, a repensar a forma como viu o Camus que leu na adolescência, a elogiar a digna naturalidade como Hitchens se comportou nos instantes antes da morte, a escolher filmes da década de 2000 (de “A Última Hora”, de Spike Lee, a “Greenberg”, de Noah Baumbach).

Aqui é o escritor que se revela e que acrescenta ao que analisa com frases que não se esquecem. “Só consigo imaginar Sísifo feliz se, no cume da montanha, existir algo ou alguém à espera dele e da sua pedra” ou “Como nos livros trágicos de Conrad, somos todos corajosos, somos todos cobardes. E esperamos humildemente que o destino nunca se lembre de nos testar” e “como todos nós, sou uma fraude que se julga original”.

Tenho aqui o livro do Gregorio Duvivier. Já li as pequenas crónicas-contos delirantes como “Breve História da Internet” e “Werner”, o “primeiro bebê-figurante da história”, a prosa sobre o primeiro dia em que fumou maconha e passou a desconfiar da polícia, os textos satíricos sobre os ultras do Estado Mínimo, todos os outros sobre os incêndios políticos diários no Brasil, outros ainda que sublinham que os primeiros comentários que se fazem sobre as mulheres é “feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não Comeria”, as respostas divertidas aos religiosos que criticaram sketches da Porta dos Fundos, o combate a um dos seus alvos de eleição – as alas mais reaccionárias em matéria de questões de costumes – e àqueles que acham no Brasil o racismo, o machismo e a homofobia já terminaram, o gozo com as tecnologias viciantes, um pedido de desculpas por ter elogiado a cidade São Paulo, que ficou ofendida com isso, a defesa, tal como faz o cronista de “Vamos ao Que Interessa”, do humor sobre o fanatismo.

Demoro-me nas crónicas mais íntimas. Aquela sobre o irmão que sofre de um síndrome raríssimo (de Apert), outra intitulado “Meus Pais”, na qual deseja guardar a imagem dos pais, outrora cúmplices e depois distantes, “no palco, tocando juntos – infalíveis”. Um texto-bomba chamado “O Palhaço Grock” no qual confessa que foi Robin Williams quem o fez mais chorar na vida e faz a defesa de um humor com sombra: “Só se faz um samba com tristeza. A boa piada precisa de inteligência e de desgraça (...)”. E remata com aquilo que o comum dos espectadores de shows cómicos ignora: “Uma boa piada pode resolver, por alguns segundos, os problemas do mundo inteiro –a não ser, é claro, os do próprio humorista”. Outro texto que me ficou é “Ator e Autor”, em que Gregorio revela saudades dos tempos em que era só ator de teatro, quando podia guardar as suas convicções, além da bunda”. (“ok, a bunda nem sempre”).

Numa carta imaginária a Auberon Waugh, Pereira Coutinho sintetiza duas evidências esquecidas: “A primeira, que não existem lições: a vida é um caos sereno que vamos enfrentando com a ironia possível. E, a segunda, que uma coluna de jornal é tão digna ou indigna como um romance ou um poema”. Não restam dúvidas. Duvivier carimbaria, com um brinde, as duas sentenças. E eu, leitor, juntaria um terceiro copo ao brinde pelo puro prazer que estas crónicas me deram.

 

 

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