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Dá Cá Cinco, Magris

por Nuno Costa Santos, em 26.01.14

Claudio Magris é cá dos meus. Apetece tomar um fininho com ele depois de ler esta passagem do seu livro “Alfabetos” (Quetzal, 2013): “Na literatura há muitas moradas e não é necessário escolher ideologicamente entre vozes contrastantes; pode-se – e deve-se – crer a um tempo na fé de Tolstói e na inércia de Oblomov”. 

Não percebo por que é que, mesmo nas literaturas, é preciso escolher um lado, um clube, uma bancada. Ou os que acreditam ou os niilistas. Ou os que escrevem com metáforas ou os realistas mesmo quando sonham. Ou os comunas ou os que ajudam na capela. Ou os que escrevem na primeira pessoa ou os que têm protagonistas chamados Martim.

Claro que tenho os meus favoritos – e sou um moço de causas criativas e delirantes. Mas gosto de frequentar uma feira literária cigana de referências e de heranças. Nas estantes tenho Rilke encostado a Bret Easton Ellis. Gonçalo M. Tavares a Ricky Gervais. Mário de Carvalho a Manuel Clemente. Dormem todos juntinhos, de mão dada, a noite toda. Para adormecê-los leio-lhes sempre uma história – de um autor menor, claro, para ninguém se ofender. Às vezes acordo a meia da noite só para topar se os meninos estão a dormir. Há quem tenha um sono mais leve e, quando acorda, se ponha a soprar as folhas para acordar os outros. O Poe é um desses.

A estante é o meu coração em madeira polida. Com alguma tentativa de arrumo mas com uma desarrumação cada vez mais procurada e, assim espero, aperfeiçoada. O meu histórico literário tem lembranças muitas, influências contraditórias várias. Impuras. Cómicos com trágicos. Idealistas com cínicos. Budistas com bebedores de whisky. O Claudio, filho de um corretor de seguros e de uma professora primária (ou seja alguém que nunca podia pertencer apenas a uma agremiação), remata o pensamento desta forma cúmplice: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo retorno. Talvez, por isso, os escritores que mais me ensinaram tenham sido os que deram voz imparcial aos matizes mais diversos da vida e às paixões mais antitéticas, à fé e ao nada”. É isso mesmo, Magris. Dá cá cinco.

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publicado às 23:53



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