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Conservador Digital

por Nuno Costa Santos, em 30.01.14

Tenho medo de mim: sinto que me posso transformar num conservador digital. O tipo de cachimbo na mão que só lê, só ouve e só vê o que está em formato digital. Ainda vou ser o homem sem estantes, forma contemporânea do homem sem qualidades. Que património posso deixar aos meus crianços? Quando deixar o universo dos vivos, os moços já não vão poder ler os meus inteligentíssimoscomentários desenhados nas margens dos livros: "Ganda parágrafo!", "Fosga-se, este gajo é muita bom!" e "Que metáfora. Toma lá que já almoçaste!". A minha herança vai passar a ser uma pen, possivelmente com vírus. O testamento, qualquer coisa como: "Deixo a minha password do Público ao mais velho, a pass da Atlantic ao mais novo, os downloads de romances russos são distribuídos pelos dois. Quem se portar melhor pode ter assinaturas do Spotify e do Netflix até ao fim dos dias".



Esta doce sedução pelo digital só pode ser uma maneira desesperada de sublimar a melancolia de tudo perder. A legendária fuga em frente. Vou convencendo o espírito de que já não é decisivo ter a posse de livros, discos, filmes. E, pior do que tudo, jornais. Durante anos financiei com onerosa ternura a loja do Senhor Gulamo, a trinta metros da casa da minha avó. Não havia jornal que não trouxesse para casa. Até trazia o 24 Horas. Só faltava o Crime e não garanto que não o tenha adquirido num instante de agudização do vício. 

O meu peugeot 106 de matrícula açoriana (AR) circulava por Lisboa como se fosse uma hemeroteca ambulante, transportando no banco de trás - há aqui amigos para confirmá-lo - tudo o que era jornal dos últimos seis meses. Um caos jornaleiro que tirava a possibilidade a um ser humano de se sentar convenientemente. A única benesse era a possibilidade de, durante uma viagem ao bairro alto, tanto se poder espreitar uma recensão da Spectator sobre o último do Martin Amis como uma reportagem-escândalo do Tal e Qual sobre o fenómeno da troca de casais na linha do Estoril. 

Como é que um conservador nos hábitos passa do vício do papel para o vício digital? Simples: substituindo tradições. O hábito faz o monge conservador, sentado na sua poltrona com o mac em cima da quadriculada mantinha da TAP. (O setter irlandês podia completar o quadro mas aqui só os vizinhos é que têm canídeos). A ida ao café para folhear o diário é substituída pelo estacionamento matutino em frente ao portátil no território caseiro. Nem acredito que estou a escrever isto. Quem me viu e quem me vê, Dona Firmina. Vou ser um velhadas virtual. E ainda não me passei, como tantos dos meus comparsas, para os kindles e suas variantes. Não contem nada ao Senhor Gulamo.

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publicado às 20:02



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