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A Arte de Não Fazer

por Nuno Costa Santos, em 04.02.14

Em “A Potência do Pensamento”, livro que a Relógio d’Água resolveu editar nestes dias de, como dizia O’Neill, “bestas céleres”, o filósofo italiano Giorgio Agamben volta a defender uma das suas boas obsessões: o homem é o único ser que pode fazer e pode não fazer. Sem essa liberdade está o caldo entornado. Bartleby, personagem de Melville, resumiu tudo numa frase elegante: "Preferia não o fazer". Resposta que convém dar a quem manda o cidadão realizar tarefas humilhantes no empregou ou ir viver para uma freguesia estrangeira.

A liberdade no campeonato artístico também pode ser olhada sob esse ângulo simples e essencial - como defendeu em termos literários o Vila-Matas de "Bartleby & Companhia". Em 1997, o escritor português José Cardoso Pires avisou, por exemplo, que “quem corre atrás de prémios acaba a levar pedradas, como quem corre atrás do público”. Existe, ainda aqui no burgo, o caso de Bernardo Soares, deambulante semi-heterónimo de Fernando Pessoa, que escreveu: “Cultivo o ódio à acção como uma flor de estufa”.O orgulho do não fazer existencial que acaba por se tornar num dos mais subversivos gestos do fazer literário, criador de um género novo, impuro. Agradeço a Soares ter decidido não fazer.

O italiano Cesar Pavese, escritor mais “clássico” mas ainda assim relacionável com esse Pessoa, escreveu um livro que é todo um programa de pensamento: “Trabalhar Cansa” . Escrever tanto – e tanto reflectir – cansava este escritor que labutou no período entre as duas grandes guerras mundiais. No seu diário, “Ofício de Viver”, no dia 21 de Julho de 1948, comentou esse cansaço dos homens: “Deseja-se ter um trabalho, para ter direito ao repouso”. Deseja-se fazer para ter direito a não fazer. 

Há também o egípcio Albert Cossery, de quem se comemoraram em 2013 cem anos do nascimento. Quando confrontado com o seguinte comentário do entrevistador Michel Mitrani (“Conversas Com Albert Cossery”) “o sono e a preguiça era um negócio próspero na sua família...”, respondeu no seu tom bartlebianamente provocador: “Ah sim! Foi mesmo a única coisa que o meu pai me ensinou!”. 

Noutro departamento ocorre-me o caso de Andy kaufman, que o universo de entretenimento onde se movia classificou de humorista, quando ele próprio negava sê-lo. De Kaufman o público esperava comédia imediata, segundo os cânones, e Kaufman preferiu não o fazer. Um importante momento dessa sabotagem aconteceu, como é conhecido, num número preparado para o talkshow de David Letterman durante o qual Kaufman fez uma alegada confissão sobre um período de divórcio pelo qual estava a passar – número este que termina com o pedido de ajuda financeira aos elementos do público e que é entrecortado por ataques de tosse vários, simuladores de uma doença de que poderia de facto padecer. 

Agamben tem sido citado, com consciência ou sem consciência, nestes dias de imposição do fazer porque sim. No primeiro dia do ano de 2014, o ensaísta Bob Brody escrevia o seguinte no artigo “Rip: All The Stories I Never Wrote”, publicado na revista “The Atlantic”: “(…) It’s taken me a long time to learn this—that sometimes the best course of action is inaction (…)”. Uma promessa de ano novo de não fazer. Extravagância necessária. Factor decisivo de uma liberdade que o homem merece procurar não perder.

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publicado às 10:24



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