Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Crescer numa ilha

por Nuno Costa Santos, em 18.03.14

Hoje a Isabel Gomes e eu tínhamos uma entrevista marcada com José Medeiros Ferreira. Medeiros Ferreira justificou a escolha deste dia de um modo lacónico e belo: gostava muito de terças-feiras. Morreu sem que tivéssemos podido falado com ele de um modo mais pessoal, mais íntimo. Que passava por um regresso necessário à infância e à adolescência.

 

Agora que estou em casa, defronte do computador, recordo-me de um artigo que escreveu chamado "A Aprendizagem Insular da Cultura", onde, a partir de uma formulação feliz, afirma a importância da sua condição de ilhéu e das suas experiências na ilha de São Miguel para a forma como entendia o mundo.

 

Havia nele um orgulho açoriano, terreno e equilibrado, culto, bem-humorado.

 

Um dos pontos mais importantes desse artigo é a afirmação da necessidade que o insular tem de "ir mais além". De exercer a sua curiosidade, de olhar o mundo a partir da sua condição de autonomia e isolamento, de cruzar a tradição com a inovação. A partir de certa altura do texto faz a narrativa da forma como se foi erguendo como "homem de cultura", nunca esquecendo a dimensão do interesse futebolístico (chega a afirmar, muito ao seu estilo, "Até aos 15 anos fui muito pouco intelectual!").

 

Entre 1948 e 1954 viveu em Vila Franca do Campo e foi aí que semeou a curiosidade pelo cinema ("Ainda me lembro de lá ter visto filmes como "Terceiro Homem", o "Homem da Torre Eiffel", "A Vida de Berlioz" e mesmo alguns Charlots que depois me serviriam de inspiração para uma ousada conferência sobre Charlie Chaplin no círculo 'Antero de Quental'). Na altura da entrada no liceu, foi viver para a Fajã de Cima com os avós, conviveu com muitos locais e, quando o liceu encerrava portas, passou a cruzar experiências com muita gente "de fora da cidade" (como se diz em São Miguel).

 

A dado momento nasceu a vontade de, convocado por Viriato Madeira e Cristóvão de Aguiar, devorar "imensa literatura" numa biblioteca ainda com separação de sexos, de saber o que se passava "lá fora" através da rádio, de ouvir música. E de discutir ideias, uma das suas vocações maiores - de debater assuntos filosóficos, políticos, desportivos.

 

Na vivência no liceu, que ultrapassou o campeonato escolar, deixou-se marcar por alguns professores, conheceu e cruzou-se com muitos elementos que mais tarde se destacaram em áreas diversas e que com ele partilharam essa aprendizagem insular da cultura. Ah, e deixou crescer a barba "para impressionar as pessoas".

 

Durante a crise estudantil em Lisboa, achou por bem manter nos plenários uma evidente pronúncia micaelense. Hoje morreu um português que nunca se esqueceu de onde tinha chegado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 21:24



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D