Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Daniel de Sá e a sua Ilha

por Nuno Costa Santos, em 27.05.13

Morreu Daniel de Sá, escritor. Vivia na Maia, em São Miguel. Era um escritor do seu povo, como uma vez ouvi Clara Ferreira Alves dizer de José Cardoso Pires. Pires era - ou tornara-se - de Lisboa e escrevia em primeiro lugar sobre a Lisboa (e o Portugal, continental) que conhecia. Sá era açoriano, de uma freguesia rural, e um dos seus romances mais conhecidos é "Ilha Grande Fechada", história de um homem que dá a volta à São Miguel numa romaria e que é todo um tratado ficcional sobre uma determinada geração de açorianos, na sua relação com a religião e a religiosidade, o "outro lado" - neste caso, o Canadá -, a guerra colonial, a relação com a pátria. Não falta também a esse romance uma crónica de costumes sobre a desigualdade social, o conservadorismo da terra e a cusquice das comadres, típica dos meios pequenos, ainda mais pequenos pelo isolamento. E é um contributo literário,  feito com agudeza e sensibilidade, para a pesquisa do que é ser humano - nas suas sombras, tentações e possibilidades.

 

 

 

 

"Ilha Grande Fechada", que é melhor quando vive de uma prosa simples, com leveza e ritmo, tem um início maior, com uma frase que define uma certa condição açoriana, sobretudo nas décadas de maior pobreza: "Uma ilha grande, fechada, que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente". Outras boas frases que ficam  - e é também delas e da forma feliz como exprimem uma ideia ou um sentimento que se fazem os melhores romances e os escritores que merecem o qualificativo.


"(...) o tempo do carrossel gritara desesperadamente a última corrida da noite, como se dessa ilusão de movimento dependesse a felicidade do mundo (...)".

 

" (...) Nas ruas por onde passara a procissão, as hortênsias não varridas iam morrendo em sossego (...)".

 

 "(...) o seu zelo de mãe não se vergava às liberdades do amor (...)"

 

 "(...) Eram ondas de baixa-mar os argumentos de Irene (...)".

 

 E há, claro está, aquela sentença que com força e verdade define o que é ser ilhéu:

 

"(...) Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela! (...)".

 

Os títulos de cada um dos capítulos são títulos de ficções importantes de outros escritores da terra, seus companheiros e cúmplices. O romance também é uma homenagem à literatura que se escreve nos Açores e no "planeta açoriano", como a de José Martins Garcia, João de Melo, Onésimo Almeida, Eduardo Bettencourt Pinto e Cristóvão de Aguiar. 

 

Foi-se um autor e um homem capaz de generosidade.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:13



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D