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Nem País Novo nem Português Novo

por Nuno Costa Santos, em 11.01.14

A manifestação colectiva de comoção com morte de Eusébio enfureceu alguma gente que frequenta bibliotecas. Eu também tive os meus momentos em que achei um excesso as palavras absolutas gritadas nas ruas, uma intemperança os gestos sem fim, uma hipérbole a cobertura disso tudo. Mas depois caí em mim: o país acordou afectivamente com a morte de um mito e não valia a pena surpreender-me com o assunto. Seria tonto desejar que o sentimento voltasse para a toca. Mais valia comover-me, como aconteceu quando vi a imagem de uma mulher a correr no meio da rua para tocar o carro funerário em que seguia o jogador.

Aliás, pergunto: houve algum mal nisso? Mais: o que é de concreto se podia fazer contra? Ir à casa da Dona Arminda e do Senhor Justino, sentar-me na sala deles e, qual mórmon intelectual, dizer-lhes, com um livro do Lipovetsky na mão: “Olhem que deviam repensar essas lágrimas que estão a verter pela morte de um simples jogador da bola. Há coisas mais importantes na vida”. Se o fizesse mereceria ser expulso pela colher de pau da Dona Arminda.

O País é este – com os seus defeitos, entusiasmos, dramatismos, as suas virtudes, manias, gritarias. Por muito que se tente desmontar o sentimentalismo do povo português, ele nunca irá deixar de ser sentimental – demorado em cada despedida de um amigo, como se fosse sempre a última, para lembrar aquilo que há anos Miguel Esteves Cardoso escreveu numa crónica. O País Novo e o Português Novo não vão nascer só porque nas tribunas se diz que é ridículo que haja tanto entusiasmo com algo com o qual uma pessoa decente não se deve entusiasmar tanto. 

O "país possível" de Ruy Belo - e de todos nós - é concretizável. Temos aspectos a apurar como equipa. Podemos ser mais cívicos, mais conscientes, menos adormecidos, menos invejosos, mais exigentes no momento do voto, mais capazes de admitir que o nosso vizinho Gilberto e a nossa colega de trabalho Júlia não são as bestas quadradas que classificamos nos corredores. Mas é impraticável e indesejável querer mudar o nosso coração. E é por isso que somos portugueses.

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publicado às 11:15


2 comentários

De Nuno Costa Santos a 13.01.2014 às 11:55

É isso mesmo que penso.

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