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Raiva

por Nuno Costa Santos, em 20.12.13

O tempo está a pedir livros raivosos e este é um livro raivoso. Uma raiva que nada tem de ressentimento. É uma raiva de zanga com o pouco  ou nada que nos vai cabendo mas também a esperança ferida de quem quer, de quem acredita. Claro que isto é literatura e a literatura não se basta com desabafos sobre o estado das coisas, sobre a opressão social, sobre manifestações, sobre o desespero. A literatura é forma, é jogo, é tocar nos grandes temas (o amor, a morte, a família, mesmo que já se não exista), é ordenar o caos com os termos certos. Estes são facas. São tiros. Brutais, muitas vezes, irónicos, outras  - e por isso ainda mais perfurantes.  

Já conhecia o texto teatral de Filipe Homem Fonseca – “Azul a Cores” é um portento dramático sobre a crueldade a que pode chegar a vidinha a dois. Agora passo a conhecer a prosa literária, sob o formato de um romance a várias vozes, impuro, cheio de referências à actualidade e cravejado de frases fabulosas como "O país está cheio de crimes violentos, paixões loucas e boa pastelaria", “a bandeira nacional gigante que poderá um dia servir de mortalha a uns quantos de nós”, “o mundo parece diferente quando visto através da mira de uma arma. Parece que estamos a ver televisão” e “Não me considero uma pessoa pessimista. Sou? Acham que sou? Nunca previ nada tão mau como isto, como posso ser pessimista? Só previ o fim do mundo. O que aconteceu foi muito pior”.

Nestas frases está o espírito de “Se Não Podes Juntar-te a Eles, Vence-os” (Divina Comédia, 2013). Um livro que nos dá uma cabeçada. Que irritará quem considera que a literatura não deve passar por aqui, por este boxe verbal no qual uma certa ideia de política e de humanismo entra no ringue. Não me parece que o livro seja um um manifesto, embora se perceba que há salpicos de fúria pessoal na forma como se lançam as frases e se faz  - através dos  monólogos e diálogos- considerandos negros sobre uma asfixia económica e social, sobre o apocalipse das possibilidades. Faz-se de histórias, de boas histórias, de sentimentos selvagens, que deixaram de se esconder, de reflexões sobre a morte, sobre o enterro cada vez mais fundo de Deus, sobre o acaso, sobre o absurdo de viver.  E isso é que é mais importante. Isso é que o torna artístico, literário, transcendente.  Lembro-me, ao lê-lo, do estrangeiro Meursault na personagem que aceita matar porque sim, porque já nada tem a que se agarrar, mas também recordo "La Haine" e um outro filme que vi recentemente, “Um Toque de Pecado”, de Jia Zhang-ke. Tal como nesse filme, "Se Não Podes Juntar-te a Eles, Vence-os" faz-se do desespero de  personagens que se violentam a si próprias com o sangue dos outros. 

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publicado às 11:51



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