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As Primeiras Coisas

por Nuno Costa Santos, em 22.11.13

Lembro-me de há uns anos ter lido num blogue um texto do Bruno Vieira Amaral que me impressionou. Falava da condição humana com tomates, sem brincadeirinhas na areia de quem quer os olés das bancadas.  Fugia ao cinismo militante, esse veneno social que nos vai matando. Lembro-me: parecia um trecho autobiográfico mas também podia ser o relato literário de uma personagem a expor a sua melancolia na primeira pessoa.  Decidi-me pela primeira hipótese, orgânica, arriscada, sabendo que a partir do momento em que o eu é descrito literariamente já não é o eu da existência mas o eu da literatura. Topei o seu gosto por Nelson Rodrigues e percebi ali um tom que se aproxima da implacabilidade com que Nelsinho escrevia sobre a "vida como ela é". Uma vida bruta e terna. Puta e menina. Vadia e íntima. Descrita de um modo tão talhante como humano. Humaníssimo. Encontro o mesmo tom em "As Primeiras Coisas", o seu primeiro romance. Agora já não leio as histórias por ordem. "As Primeiras Coisas" é uma lista telefónica da solidão. Abrimo-lo ao acaso e encontramos personagens-pessoas (a Adozinda, o Barbosa, o Bêbado, a Dona Ilda,  o Joãozinho Treme-Treme, a Paula, o Roberto) a quem poderíamos telefonar, mesmo que já mortas,  abandonadas num apartamento, numa lixeira ou atravessadas de balas e com o crânio desfeito. Ao descrever os pormenores destas biografias (reais, imaginárias - pouco interessa) do bairro Amélia, na Margem Sul, o escritor aproxima-nos delas. E essa pode ser uma das tarefas maiores do escritor - aproximar sem moralizar. Como Nelson Rodrigues, Vieira Amaral sabe que as melhores histórias - as que melhor nos revelam - estão na nossa rua. E que juntam sentimentos maiores e gestos miseráveis. Extremos em coabitação improvável. O Sonasol e o Lago dos Cisnes. O Correio da Manhã e o Für Elise. Camus e o Luís Filipe Reis. A vida é isto, como dizia o outro - e a melhor literatura sabe descrevê-la no seu modo impuro de ser. É preciso olhá-la, ouvi-la, espreitá-la (sim, como um anjo pornográfico) e, se tivermos talento e coragem, escrevê-la com as palavras mais perigosas do dicionário.

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publicado às 23:43



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