Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Para o Óscar, do J Piquete

por Nuno Costa Santos, em 10.05.15

Eram os dois. O Óscar Mascarenhas e o Ferreira Fernandes. Habitavam o mesmo gabinete no Diário de Notícias. Há 20 anos, mais ou menos. O Óscar Mascarenhas era meu orientador de estágio, mandava-me escrever umas crónicas de tribunal de polícia, no qual tinha – eu e os meus comparsas - o marcante nome de J Piquete (quem também foi J Piquete que se acuse). As referências maiores para o Óscar no género crónica de tribunal de primeira instância eram os textos que o Rui Cardoso Martins escrevia para o Público, Levante-se o Réu. Percebia-se porquê. Fazia de pequenos casos literatura.

Ferreira Fernandes, mesmo que não o fosse formalmente, também foi meu orientador de estágio. Pelos seus comentários irónicos e por aquilo que ia escrevendo – sobretudo umas pequenas crónicas-reportagens sobre o crescimento do fundamentalismo islâmico na Argélia, numa altura em que ninguém falava disso.

O Óscar Mascarenhas era um pedagogo. Tinha paciência para isso, ao contrário do Ferreira Fernandes. Não que ligasse especialmente ao que eu escrevia. Mas por ir comentando sempre, por um sentido de dever, os meus textos. Lembro-me de duas notas sobre essas minhas crónicas de J Piquete: uma arrasadora, quando resolvi dar opinião sobre um caso em julgamento (julgo que tinha a ver com hooliganismo e entusiasmou o anti-hooligan que estaciona em mim). Foi duro com o rapaz de 20 anos que ali estava. Disse que ia cortar sem clemência tudo o que fosse comentário. Outra: um elogio em relação a um texto. Não me devia achar grande espingarda. Estava convencido que tinha sido escrito por outra pessoa equipada com o mesmo pseudónimo.

Mais tarde deu-me a possibilidade de assinar uma reportagem sobre os mandatários para a juventude de umas presidenciais. E mandou-me para um congresso do PSD. Para escrever algum texto? Não. Para acompanhar um congresso do PSD.

Quando terminei o estágio, desafiou-me para desempenhar umas tarefas remuneradas (mal) para o suplemento “Casas”. Na altura era demasiado artista para usar a minha pena num suplemento como esse. Mais tarde arrependi-me. Teria sido um começo.

Fui lendo o Óscar Mascarenhas. Impressionava-me sempre a sua forma de escrever. Torneada, elegante, antiga. Capaz de ferir, em estilo neoqueiroziano. Alguns textos achava bons e pertinentes. Outros irritavam-me. Chateou-me um texto, cheio de exageros e de uma linguagem bruta, que escreveu sobre o Pedro Lomba, pessoa que conheço e considero desde os tempos da Faculdade.

Reencontrei-o aqui nesta cafetaria, habitada por muitas opiniões e muitos gatos, que é o facebook. Não falámos nesse pede-recebe pedido de amizade. Apanhava e espreitava algumas das suas entradas.

Tenho lido vários comentários de camaradas seus após a sua morte. Quase todos se repetem num ponto. Houve em muitos casos porrada, desacordo, chatice, amuo. Mas manteve-se sempre o respeito e a lealdade. Gostei desses textos porque não embarcaram naquela toada tão portuguesa do elogio sem matizes.

Morreste Óscar Mascarenhas, professor dos meus primeiros dias de jornalismo. Um abraço de um dos J Piquete.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:21

Cartão do Cidadão

por Nuno Costa Santos, em 09.05.15

Açoriano, português e europeu 

Crente, com pretensões de se tornar ateu
Sinto-me em casa em Espanha e Itália
Como se estivesse a ouvir a Rádio Amália
Em Paris já não é tanto assim
Mas também não uso muitos fatos de cetim
Sou mais um daqueles que não fizeram a tropa
Que não serviram militarmente a velha Europa
Um tipo do tempo em que não havia email
Para conhecer miúdas era preciso fazer o inter-rail
Casado, três filhos, nas festas faço de pai natal
Distribuo presentes e dívidas à segurança social
Por acaso até já tenho tudo em dia
Aos 40 pedi emprestado dinheiro a uma tia
Uma tia que à conta disso ficou endividada
Pediu um crédito ao banco e já está penhorada
Isto não é bem verdade mas podia ser
Vou acabar que já se faz tarde
O pessoal quer é ir beber

 

(escrito para o Dia da Europa, celebrado há pouco na Aula Magna pelo Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:32

Andar a Pé

por Nuno Costa Santos, em 05.05.15

Há um ano sabia-se da fúria dos centristas depois de Passos Coelho ter admitido em entrevista que, em nome da estabilidade do País, o PSD se mostrava aberto a uma coligação com o PS. Agora parece estar tudo serenado. O matrimónio com o partido do Caldas é para manter. Já não há cartas de amor para novos amantes.

A justificação para a coligação, diz Portas, é o "interesse de Portugal". Pergunta-se: mas que interesse de Portugal é esse depois de se ter percebido que, sempre que podia, o CDS-PP se distanciava do esquecimento de Passos em relação ao sufoco material de uma generosa parte da população?

Isto faz lembrar uma entrevista que o escritor e crítico Pedro Mexia deu ao jornal i no fim-de-semana passado. Uma resposta: "Em alguns momentos houve figuras ligadas a este Governo que fizeram declarações públicas que revelaram uma insensibilidade social muito gritante." Outra: "Tudo o que não respeita o sofrimento alheio, incluído o desemprego e a pobreza, não me interessa. É o meu fundo católico."

São eleitores moderados como Mexia que o CDS-PP perde ao querer subir para o altar eleitoral coligado com um partido que tem soterrado o "sofrimento alheio" debaixo da pulsão do fundamentalismo financeiro. O CDS-PP já não é o partido do táxi. É o partido que deixa as pessoas a andar a pé.

 

(Publicado na Sábado)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:56

Em Campolide há teorias sobre o amor

por Nuno Costa Santos, em 01.05.15

O amor é lindo mas não faz descontos.

 

O amor é lindo mas às vezes fica sem rede.

 

O amor é lindo mas a aplicação é melhor.

 

O amor é lindo mas vê lá este vídeo do Tá Bonito.

 

O amor é lindo mas um dia vai ter de fazer uma plástica.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:27

Pág. 4/4



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D