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Fruta Feia

por Nuno Costa Santos, em 06.10.14

"Fruta Feia", de Miguel Cardoso (douda correria, 2014). Está aqui comigo, numa mesa que precisa de ainda mais desarrumo (está num meio-termo que não se aceita). Folheio-o enquanto o Rodrigues Guedes de Carvalho fala do primeiro caso de Ébola na Europa e o meu filho aprende o sorriso enquanto dorme.

Gosto desta poesia. Já a havia provado noutros carnavais, já não me lembro quais. Do livro antecedente, provavelmente. É feita de um fraseado literário cuidadoso, metafórico e "construído" - "Porque largar a infância/ era ir na direcção inversa/ dos túneis vastos que me deixara na vista", "Ia a manhã em festim de ervas altas/ que eram redes de arrasto da luz" - que aqui e ali é intercalado por ditos de rua: "não basta", "Tudo muito bonito", "em suma é fácil", "Aquela coisa".

Essa união de facto entre a seara e a barba é em geral do agrado deste cliente da mercearia. Alguns poemas são mais uma vaga poeira virtuosa e críptica menos apetecível para este paladar. Outros agarram os colarinhos deste que usa T-shirt.

"isto não está para esplendores", avisa em verso Cardoso, o que, permitam-me, fala em voz alta com um verso ancestral aqui do Santos, "os dias não estão para isso". Se calhar ao ler este livro feito de um lirismo aos tropeços, umas vezes claro e chão, outras vezes indirecto e sinuoso, estou em parte a ver-me ao espelho, gesto que é permitido a um homem que aos 40 anos encontra um poeta que conta que se cruza com Rimbaud em sentido contrário.

Aliás, este é um livro cheio de "istos" e "aquilos", palavras que têm sido evitadas em demasiadas esquinas poéticas. Porque no fundo esta história resume-se a isto e aquilo, embora os especialistas o neguem nas palestras.

"Viver faz falta aos versos", escreve e bem Miguel Cardoso. Pois é, tem razão. O que é que se faz? "e em seguida janta-se".

 

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publicado às 21:07

São notícias, senhores

por Nuno Costa Santos, em 06.10.14

Twin Peaks vai ter uma nova temporada em 2016. Mais uma vez não se sabe que voltas e reviravoltas é que vai dar o enredo. Marinho Pinto já foi convidado para o elenco.

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publicado às 20:43

Depois da intervenção do presidente

por Nuno Costa Santos, em 05.10.14

Infelizmente não houve comunhão de bens. No divórcio entre os portugueses e a política a política com ficou com os bens todos.

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publicado às 22:05

Mistérios

por Nuno Costa Santos, em 05.10.14

Os pais rejubilam quando os bebés arrotam depois de terem ingerido o seu alimento. Misteriosamente, anos mais tarde, os filhos não rejubilam quando acontece o mesmo com os pais.

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publicado às 00:04

Conclusão recente

por Nuno Costa Santos, em 05.10.14

Um pai recente não tem o direito de ser outra coisa que não um pai recente. Cada vez que é visto a não ser um pai recente - passear na rua, pagar um bilhete do metro, beber uma mini - é indignadamente mandado para casa. Um pai recente tem menos autonomia que o seu bebé.

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publicado às 00:01

Teatro-Bomba

por Nuno Costa Santos, em 03.10.14

 

Uma família palestiniana - pai, mãe e filha - vai de comboio para Ramallah. Cada um abre a sua lancheira de sentimentos. Há quem lamente a perda de liberdade entre polícias, há quem desafie a pureza dos ensinamentos religiosos perante o abuso de poder para consumar apetites sexuais e há quem nomeie o sonho de ter uma casa.

Não é a voz do povo palestiniano que está aqui. É a voz do autor a partir de histórias que conheceu. O resultado é espantoso. Entre o realismo e o delírio com os pés na terra. Uma peça política mas sem manifesto partidário. Nas palavras finais da filha, bombista suicida, corre a convicção – de Antonio Tarantino? - de que vai morrer num beco absurdo onde ninguém tem razão.

Texto urgente para um espectáculo urgente. O que se passa no palco – a excelência com que se passa – tem nervo. Confronta e emociona. E, permitam-me o arrojo, é excelente uma pessoa ir ao teatro para se confrontar e se emocionar.

(Sobre "A Casa de Ramallah", de António Tarantino, peça dos Artistas Unidos em cena no Teatro da Politécnica até dia 11 de Outubro. Tradução Alessandra Balsamo Com Andreia Bento, Nídia Roque e António Simão Luz Pedro Domingos Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Encenação Jorge Silva Melo Produção executiva João Chicó

Publicado no suplemento "Tentações", da Sábado).

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publicado às 19:11

Vou Emigrar para o Meu País

por Nuno Costa Santos, em 03.10.14

"A situação de emergência financeira e política em que vivemos tem originado, um tanto paradoxalmente, um intenso movimento editorial. De textos apologéticos da governação (poucos embora) a tentativas de reescrever a história dos grandes banqueiros injustamente tratados ou dos proprietários “espoliados” pela revolução, até a textos profundamente enragés (bastante mais frequentes), passando pelos que tentam encontrar no humor um modo de lidar com a nossa desesperança colectiva.

 

Nesse contexto, o livro de Nuno Costa Santos, Quero Emigrar para o Meu País é um objecto um pouco atípico, ainda que mais próximo deste último filão, coerentemente, aliás, com uma parte significativa da sua actividade intelectual, mas com inscrição num fundo magoado.


Esse fundo perpassa logo no título, que me relembrou o de um artigo que eu próprio escrevi, intitulado “Num País Onde Não Respeitam os Meus Direitos Eu Não Quero Viver”, título roubado a Von Kleist, via Jorge Silva Melo. Num caso, como no outro, suspeito que o que realmente queríamos era que nos devolvessem o Portugal de que gostamos.

 

O Nuno, tal como eu, gosta muito deste país, o que o leva a sofrer não só com o menosprezo dos direitos cívicos, mas com a mudança de hábitos e práticas sociais, que faziam de Portugal um espaço ameno e agradável de viver.


Por isso, caracteriza com uma sobriedade notável o Portugal dos nosso dias, enquanto nos fala do país para onde quer emigrar, “o meu país”, escrevendo: “tenho lido coisas extraordinárias sobre este território para onde quero emigrar. É um lugar sem ressentimento de maior, onde se distribuem facilmente elogios a quem os merece. Onde os homens e as mulheres começam por cuidar do seu jardim para depois atenderem à floresta de todos. Onde os mais velhos não são abandonados em quartos andares sem elevador. Onde os governantes não empurram umas gerações contra as outras. Onde há personalidade capazes de tirar algum do seu rendimento para financiar bolsas e outras iniciativas do género (...) onde há comprometimento - e não a conversa do “são as obrigações internacionais” nem a do “deixa só passar esta fase”.

 

Se bem o entendo, o Nuno Costa Santos quer dizer que o nosso país antes era bem melhor. Não sei se era tão bom como o autor parece pensar, mas não tenho dúvidas de que superava em muito esta terra, que não sendo para velhos também não é para novos.

 

 Uma série de textos retomam o estado do país em termos notáveis. Recordo outras crónicas que partilham a irritação que sentimos tantas vezes. Cito apenas algumas: “Casais Mistos”, “Isto Esta Semana Tem Andado Muito Complicado”, “Onde é que Fica o elogio?”, “a Cenazinha do Ódio”, “Sejamos Indiferentes”, “o Problema da Cunha” e “Os Nossos Cumprimentos”.

 

Lendo-o olhamos à nossa volta. Vemos com pesar a forma como a realidade e os comportamentos mudam. Por isso nos remetemos facilmente à nostalgia de coisas que já não existem. E compreender-se-á bem que, escrevendo para um jornal dirigido por um antigo e tão respeitado jornalista, exemplifique com a nostalgia dos quiosques, objecto de uma bela crónica. E aí, a diferença de idade em relação ao Nuno Costa Santos leva-me mais longe e a uma nostalgia mais funda: a dos ardinas que vendiam jornais nas ruas, nos comboios, nos cafés. Os tempos eram outros. O tempo também era outro. No café, tantos deles já fechados há muito, esperávamos ansiosos a chegada dos vespertinos para complementar o sabor único da bica.

 

Hoje os ritmos de trabalho que nos tolheram a capacidade de estar, de encontrar e de sentir o pulsar das nossas cidades, fizeram com que os cafés que restam sejam para muito poucos: alguns reformados - a maior parte nem para isso tem dinheiro - e uns quantos protagonistas de encontros apressados. E não se pense nos desempregados, porque esses batem as ruas à espera de um chance ou já não encontram energia para sair. Na letargia dos cafés que restam, os frequentadores leem o Correio da Manhã avidamente ao longo do dia. E basta!

 

Despareceram as tertúlias e o sentido de partilha, ganhou-se em ritmo de trabalho (em produtividade não sei), mas ainda assim não convencemos alemães e finlandeses de que não somos impenitentes preguiçosos.
No polo oposto da nostalgia pelos jornais e quiosques, encontramos as dificuldades de lidar com o admirável mundo novo informático, ao qual eu e até o Nuno Costa Santos chegámos um pouco tarde. É difícil a transição de uma cultura tradicional para a idade cibernética e o autor dá conta dessa dificuldade e dessa inadaptação em textos tão interessantes como“ O Conservador Digital”, “Soprar as Velas” (sobre o Facebook) ou “Os Dalai Lama dos Likes”.

 

São cento e cinquenta as crónicas incluídas no livro e, no fim destas estas crónicas, fruto de uma vida intensamente vivida, mas também reflectida e, sobretudo, sentida, em que nada é neutro, mas em que prevalece a ternura e a fina ironia, como me sinto enquanto leitor?
Bem disposto, como fico sempre que leio um livro que me oferece algo de genuinamente novo.

 

“Vou emigrar para o Meu País” coloca-se muito longe do main street editorial dos nossos dias, numa opção deliberada. De um certo modo, o livro lembra-me uma bela profecia do meu cineasta de cabeceira, François Truffaut, de quem o Nuno Costa Santos seguramente muito gostará, pela sua capacidade de olhar com ternura para os personagens. Truffaut profetizava, nos anos sessenta, que o cinema do futuro seria cada vez mais intimista e autobiográfico e o seu sucesso imenso e proporcional aos amigos do realizador. Os seus amigos lê-lo-ão ou relê-lo-ão. E os seus amigos são muitos e serão cada vez mais.

 

O interessante é que, sob a aparente simplicidade, que me faz lembrar a leveza para que nos convoca Italo Calvino, somos convocados à reflexão de temas cruciais na actualidade. Poder-se-ia, a propósito de qualquer das crónicas, encetar debates sociológicos, antropológicos e políticos profundos. Para quê fazê-lo quanto tudo já fica assim dito? Este é felizmente um livro enganador.

 

Não podendo refazer aqui a totalidade do percurso desta obra de Nuno Costa Santos, não queria deixar de recordar as belas crónicas que dedica a personalidades que o impressionaram particularmente. Retenho três: José Medeiros Ferreira, Fernando Assis Pacheco e Fernando Lopes, homens muito diferentes, mas com evidentes traços comuns: o amor à vida e, em geral, a capacidade de amar, a inteligência e a qualidade de trabalho.

 

José Medeiros Ferreira – o grande sedutor, o despertador de paixões, o resistente, o íntegro, o culto, o generoso, o percursor, o irónico por excelência. O cometa que atravessou décadas da vida portuguesa marcando-as de forma indelével. Deus sabe quanto o amámos. Fernando Assis Pacheco, com quem tive o privilégio de trabalhar e privar nos meus vinte anos, na República. E Fernando Lopes, esse falso looser, retratista por excelência da Lisboa moderna, percursor do cinema português e, sobretudo, um homem que tanto amou e tanto foi amado.

 

Este é um livro que, numa leitura apressada, pode ser olhado como um produto sazonal ou como uma leitura fácil para entretecer as tardes de Verão. Mas é muito mais que isso. É um lúcido, qualificado e sensível testemunho sobre o Portugal de 2014".

 

(Texto de Eduardo Paz Ferreira publicado na edição do Jornal de Letras de 1 a 14 de Outubro de 2014)

 

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publicado às 19:08

Forever Young

por Nuno Costa Santos, em 02.10.14

Também é canadiano. Ainda não tem 80 anos como Leonard Cohen mas, se Deus quiser, lá chegará. É o rockeiro Neil Young. Tenho andado a cruzar-me novamente com ele. Emprestaram-me ‘Waging Heavy Peace’, um livro de memórias, desordenado, orgânico, livre. Um conjunto de episódios, reflexões, evocações, aspirações, melancolias. Traz um subtítulo que condiz com a empreitada sem rumo definido: ‘A Hippie Dream’. E um prefácio adequado: “When I was young, I never dreamed of this. I dreamed of colors and falling, among other things”.

 

Fica-me uma sensação de apaziguamento ao ler este livro. Ainda há gente sem ponta de cinismo no mundo. Assumindo todas as suas desilusões biográficas (com destaque para as familiares - tem dois filhos com sérios handicaps físicos), Neil acredita, apesar de tudo, nas possibilidades disto que nos cabe. O que se sente ao percorrer estas páginas é uma crença no poder que as marés da vida podem ter numa alma vulnerável, que tanto assume a felicidade em receber um telefonema de Bob Dylan como reconhece que podia ter sido melhor companheiro quando a sua mulher estava em apuros médicos.

A amizade percorre estas páginas – e talvez seja uma palavra que define bem o autor de ‘On The Beach’ (um dos meus discos preferidos dele). A amizade com as suas pessoas, as vivas e as mortas, com a lua, com a floresta, com a guitarra. Uma desilusão com a circunstância de se ouvir hoje música sem receber sequer suas mínimas potencialidades sonoras. A cumplicidade musical com gente mais nova como os Pearl Jam e os Sonic Youth - e também com, por exemplo, os My Morning Jacket, banda na qual a forma de cantar se aproxima de certa forma da sua. Um apego ao seu rancho.

Neil – que se divorciou recentemente de Pegi (algo que não lhe deve ter sido fácil, depois de 33 anos de casamento) e, segundo umas fotos recentes, tem uma nova namorada, Daryl Hannah – continua a inspirar quem acha que isso faz sentido. É de recordar o pedido: keep on rockin’ in the free world. Que é como quem grita: Forever Young.

 (Publicado na revista "Sábado")

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publicado às 15:27

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