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por Nuno Costa Santos, em 29.06.14

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publicado às 14:24

José Ferreira Fernandes

por Nuno Costa Santos, em 29.06.14

 

 

 

Em Novembro de 1997, o Miguel Romão e eu entrevistámos para a revista universitária Inventio um jornalista português que praticava o jornalismo da pequena história,- aquela que conta o pequeno gesto revelador da condição humana. Chamava-se Ferreira Fernandes e na altura era editor na revista Visão e escrevia crónicas para o Tal e Qual e para a TSF. Havia publicado dois livros sobre emigração.

Hoje o Ferreira Fernandes que admirava e admiro - no seu jeito para condensar em pequenas frases o caos do mundo - vai dizer umas palavras no lançamento de um livro que escrevi, "Vou Emigrar para o Meu País". As gratas razões para o ter convidado para estar hoje à tarde na FNAC Chiado estão nas respostas que deu nessa entrevista.

“As pessoas gostam de histórias. Não sei se com as fracas televisões que temos e com o jornalismo mais cor-de-rosa esse gosto se vai perder. É possível. Mas eu julgo que não. Porque é inerente a nós: as pessoas gostam de histórias de pessoas. Com aquilo que de fundamental têm as pessoas que contam as coisas banais, mas ao mesmo fundamentais: é o amor, é a vida, é o sangue…”.

(…) 

O essencial que eu tenho da política é o seguinte: eu sei que os pais negros choram a morte de uma filha da mesma maneira que os pais brancos.

(…)

Mais do que contar as grandes clivagens entre as organizações políticas, eu falo da empregada do Hotel que me foi levar a um lugar e reparo que quando ela passa por um espelho abana a cabeça para olhar a crina, para olhar os cabelos. E extrapolo uma vontade daquela mulher de ter orgulho nos cabelos. E ali, na Argélia, ter orgulho nos cabelos não é propriamente uma propaganda ao Vidal Sassoon, ou qualquer dessas marcas de dois em um. É uma questão de afirmação pessoal.

(…) Num jogo de futebol torço pela Holanda, que tem pretos e brancos, e não pela Costa do Marfim, que tem só negros ou pela Alemanha que tem só brancos. O meu coração vai logo para ali.

(…)
A situação que mais me tocou enquanto repórter foi quando estive seis semanas com a UNITA e, ao regressarmos do Norte, acima do caminho-de-ferro de Benguela, para posições mais seguras, havia uma rapariga que vinha ferida e ardia em febre… Eu tinha no bolso um toalhete da TAP, desses que normalmente deito fora, e dei-lho. Vi-lhe, ao passar aquilo na cara, uma surpresa e um prazer por um bem de que normalmente prescindo e deito fora”.

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publicado às 14:22

Eduardo Paz Ferreira

por Nuno Costa Santos, em 29.06.14
A Anabela Mota Ribeiro fez-lhe uma grande entrevista para o Jornal de Negócios em 2011. Eduardo Paz Ferreira. Professor universitário (de Finanças Públicas), advogado. Ex-jornalista do República (mais tarde convidado para director de informação da RTP; cargo que recusa a favor da carreira académica), cidadão que recupera para a universidade as causas de abertura, reflexão e empenhamento. 

Açoriano apegado e nostálgico, cultor de um humor finíssimo, adepto das artes, em especial da arte cinematográfica. Homem grato - por exemplo, a Medeiros Ferreira, seu mestre, e à mulher, Francisca van Dunem, procuradora. E - permitam-me a nota pessoal - primo de um primo meu, o psiquiatra Carlos Eduardo Paz Ferreira, homem que nos deixa tantas saudades pelo seu humanismo e pela sua curiosidade para lá de todas as geografias (um dia saberei escrever sobre ele).

Nas respostas a esta entrevista que o Eduardo Paz Ferreira deu à Anabela estão alguns dos motivos pelos quais o convidei para estar na apresentação do livro "Vou Emigrar para o Meu País". Aceitou. Um privilégio.

"Foi uma grande coincidência que o Medeiros Ferreira também gostasse de discutir futebol. Ele tinha uma atitude impressionante, era a negação de tudo o que eu pensava que era um intelectual. Achava que ser um intelectual era ser muito sisudo, muito chato, não ir a festas, não dançar, não namorar. Imagens de épocas já remotas. O Medeiros Ferreira só queria festas, namorar meninas bonitas, divertir-se. Ele é que tinha razão. Acabou por me passar algum desse espírito lúdico. 

(...)

Os Açores eram marcados por uma grande pobreza. A imagem mais chocante que tenho é a dos trabalhadores rurais que ficavam parados ao pé das igrejas; as pessoas que precisavam de um trabalhador iam lá recrutá-los, ao dia. A comida deles era um pão de milho com pimenta da terra em cima, no máximo com uma sardinha ou um carapau. Ou batatas cozidas com pimenta. Estou a falar de um período nos anos 60 em que as coisas tinham melhorado, já tinha havido muita emigração.

(...)

Portarmo-nos bem é um pressuposto, mas temos mais obrigações com a sociedade. Como qualquer português, tendo a ser muito crítico de certas pessoas que actuam na esfera política, ou mesmo profissional, e uso palavras duras. A [minha mulher] Francisca diz-me: 'Não tens legitimidade para criticar porque não fizeste este percurso, não tentaste isto. Só podias criticar se tivesses tido a coragem que ele teve'. É um raciocínio muito bom e muito certo. Vem de uma pessoa – mas sou suspeito a falar dela – cuja percepção da vida e do mundo é extraordinária e iluminante.

(...)

Pertenço a uma geração que lidou muito mal com o sucesso. Os meus heróis favoritos, seja no cinema, seja na literatura, são mais os losers do que os winners . Há uns tempos, uma pessoa procurou-me para intervir junto de outra pessoa mais jovem: “O Sr. Dr., que é um homem de sucesso…”, e eu disse: “Isso é a pior coisa que me podem dizer. Quando quero fazer auto-ironia digo que sou um homem de sucesso.


(...)

No meu escritório recebo muitos pedidos de estágios, e quase invariavelmente a conversa é: “Sou uma pessoa ambiciosa, estou determinada a subir na vida, farei tudo o que é preciso para ter sucesso”. Nunca seleccionarei uma pessoa que me escreve isto. Mas escrevem isto porque foram formatados neste modelo. Há aqui uma linha muito fina entre o que é a ambição legítima e o que é a ambição medíocre.

Quero no meu escritório alguém que saiba trabalhar, que saiba de Direito, mas com quem possa falar de cinema, trocar impressões sobre livros.

(...)

Toda a utilidade que a universidade pode ter é justamente o diálogo com a sociedade. A grande dificuldade é explicar aos meus alunos como é que é possível que a cadeira que dou, Finanças Públicas, seja uma cadeira de cidadania. Quero que percebam os mecanismos, porque é que pagamos impostos, que direitos temos enquanto pagadores de impostos. É uma luta um pouco perdida. Mas não pode ser, vou continuar.

(...)

Tenho uma melancolia doentia por tudo o que desapareceu. Na Avenida da Liberdade, no Paladium, lembro-me das salas de bilhar. O meu café era o Granfina, que ainda existe, mas não entro lá há 20 anos (está descaracterizado). Quando penso nessas pessoas que iam à Granfina, penso: 'O que é que fizeram com aquilo em que acreditavam?'. Porque é que não houve a capacidade de ter outras referências e outros valores? 

(...)

Perdi o meu pai quando ele tinha 57 anos e a minha mãe quando ela tinha 60 anos. Ainda hoje sou completamente órfão. Tenho sempre a sensação, que racionalmente posso dizer que é falsa, que não fui capaz de os salvar. Morreram com doenças, mas tenho sempre essa sensação. 

Quando o meu pai morre já vivia em Lisboa há uns tempos, e eu passava muitas horas com ele. Íamos ao Rossio, ao Nicola, os tais sítios da nostalgia. Tenho uma saudade quase absurda da Lisboa boémia que Fernando Lopes retrata no “Belarmino”, que já não conheci bem. Mas conheci bem o Bolero, ao pé do Martim Moniz, onde havia dois acordeonistas cegos a tocar tango. Era uma coisa felliniana. O velho Ritz. Essa noite estranha de Lisboa".

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publicado às 14:20

Aquela altura do ano

por Nuno Costa Santos, em 24.06.14

Começámos a chegar àquela altura do ano em que se torna ainda mais difícil resolver o mais miserável dos assuntos: "Ah, esta semana não pode ser porque a Carla, que é quem trata deste assunto, está de férias". "E se, em vez da Carla, for a Tânia a tratar do assunto?". "A Tânia também está de férias". "E se for a Isilda". "A Isilda também está de férias". "E se for o Zé António?". "O Zé António não pode porque não domina esse assunto". Não me interpretem mal: sou sensível ao direito às férias, até mesmo ao meu. Mas o problema é que, diz-me a memória, no resto do ano não é muito diferente. Quem nos pode tratar do assunto está sempre de férias. Só volta daqui a quinze dias. Um mistério da humanidade.

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publicado às 20:27

Em tudo

por Nuno Costa Santos, em 18.06.14

Um gajo percebe que está a ficar pretencioso quando começa a colocar aspas em tudo o que é palavra.

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publicado às 23:42

Esperança

por Nuno Costa Santos, em 18.06.14

A esperança é a última coisa a morrer mas o facto é que também morre.

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publicado às 23:40

Segundo resgate

por Nuno Costa Santos, em 18.06.14

Afinal vai haver segundo resgate: o jogo com os EUA.

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publicado às 23:40

O Meu Pai Tinha Razão

por Nuno Costa Santos, em 13.06.14

Quando eu tinha 17 anos o meu pai achou que o filho não devia seguir o curso de Comunicação Social porque depois iria ficar no desemprego. Estrebuchei, zanguei-me, irritei-me. O tempo veio dar-lhe razão e isso entristece-me: ter de dar razão ao meu pai neste assunto. Não estou desempregado mas há muitos companheiros meus que estão. Há cada vez menos trabalho para os jornalistas e a última notícia na área é que há um grupo que vai despedir de uma só vez 140 trabalhadores e rescindir colaborações com 20 pessoas. É mais uma acha para a fogueira de um prenúncio de morte.

E o que é que isto significa? Que há uma data de gente, muita dela acima dos 40, que vai andar a bater a portas inexistentes numa praceta cada vez mais pequena. Como é que vão sobreviver? Só os milagres poderão dar uma resposta. 

Diz-se e bem que não há democracia sem jornalismo. Direi mais: não há democracia sem bom jornalismo, exigente, feito de frescura mas também de experiência, de olhar atento e experimentado, mais sabedor das curvas que a vida pública pode dar.

Ser jornalista - com 20, 30, 40, 50, 60 anos - é ser cada vez mais um sobrevivente, uma ave que consegue aguentar um poiso apenas por uma temporada. Há uma mudança na forma como se lê jornais mas também as políticas fazem o cidadão pensar se deve guardar os tostões em vez de os empregar a comprar um periódico.

 

O resto aqui.

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publicado às 01:01

O Desmaio de um Homem

por Nuno Costa Santos, em 10.06.14

Acordo, consulto as notícias, entro nas redes sociais e fico a saber que desmaiou um homem em público. Um homem que é presidente da República – no qual nunca votei e cuja acção política está a milhas daquela que desejava que fosse – mas um homem. E o que é que topo nas conversas e nas notas de gente que julgo ter um sentido humanista da existência? Zombaria do desmaio do homem. Riso. Não quero acreditar que se tivesse morrido a gargalhada teria sido maior. 

É isto que queria dizer, como dizia o outro: este ódio anda a matar as gentes por dentro. Com uma agravante: sem que se apercebam disso. Chegámos ao ponto em que um homem que desmaia, que desfalece, não merece um instante senão de empatia pelo menos de silêncio. Nem sequer vou falar do facto de ter sido eleito por voto da maioria. Vou apenas referir que é um ser de carne e osso e que, mesmo desafinado, também tem um coração.

Um homem é um homem é um homem. Abra-se os olhos. Quem cai, mesmo que seja um adversário, não merece um pontapé verbal, uma risada de escárnio, vinda do alto de uma janela. Merece a espera necessária a que se recomponha para voltar a ser rebatido. Não contem comigo para a festa do desmaio dos outros. O cinismo é uma ditadura do espírito. O cinismo é um desmaio das ideias.

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publicado às 21:43


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