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O Cinismo Merece Levar um Par de Estalos

por Nuno Costa Santos, em 31.03.14

Abomino o cinismo, tema de capa do número de Março do ‘Le Magazine Littéraire’, que nos revela quem foram os seus antepassados intelectuais e filosóficos. Ainda percebo a prudência e o cepticismo. Agora o cinismo, cada vez mais tolerado nas esquinas, é algo que devia ser alvo de uma desinfestação. De uma descinização. Devíamos ser cínicos em relação ao cinismo.


O português não é nem nunca foi cínico. No máximo é céptico. Duvida. É do tipo “deixa cá ver”. Do género estar encostado ao balcão do café à espera, desconfiado. É mais chatinho do que cínico. Ao princípio manda abaixo mas é capaz de aplaudir quando assiste a um curto avanço, a uma conquista.

O cinismo é uma doença sem nacionalidade, cada vez mais disseminada. O cínico é aquele rapaz que começa a sua carreira no pátio do liceu. Manda bocas a todos os progressos escolares e emocionais de quem vai passando com a mochila às costas e, quando Nelson Mandela foi libertado, comentou, de cigarrinho no canto da boca e vinagre na voz: “Agora é que ele vai partir a boca aos outros todos”. Este é o cínico. 

 

(O resto aqui).

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publicado às 16:53

Dia Mundial do Teatro

por Nuno Costa Santos, em 30.03.14

Ontem foi o Dia Mundial do Teatro e estou extenuado. Passei o dia a representar o papel de cidadão que acha que o meu país está bem de saúde.

 

(o resto aqui). 

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publicado às 23:22

Disfarçar a Dor

por Nuno Costa Santos, em 27.03.14

Consulto os jornais e encontro a notícia: “Morrem por ano 200 crianças e jovens sem receber cuidados paliativos”. Uma peça solta que vale mais do que a grande parte das irrelevâncias (entre “novidades” e debates monotemáticos) com que nos vamos cruzando, em zapping, na televisão, na rádio, na Internet. Estaciono na notícia. Apetece-me imprimi-la. Guardá-la. Arquivá-la na eternidade breve dos arquivos. 

E lembro-me do livro de Susana Moreira Marques, ‘Agora e na Hora da Nossa Morte’ (Tinta da China, 2013), relato fragmentário, feito de histórias e apontamentos, de uma viagem realizada a propósito de um projecto de cuidados paliativos em Trás-os-Montes, lançado pela Gulbenkian. Na página 21 está uma definição de paliativo: “Que serve para paliar. 2. Remédio que não cura mas mitiga a doença. 3. Recurso para atenuar um mal ou adiar uma crise; adiamento. 4. Disfarce”. 

Disfarçar a dor de quem vai morrer. Gosto da ideia. Porque disfarçar pode ser o melhor dos verbos quando aliado à ideia de narrar e receber ficções, de iludir a nossa fragilidade de seres demasiado presos à dor da terra, de dar aos nossos histórias e possibilidades antes de morrerem. Conheci alguns beneficiários desses cuidados durante uma reportagem que fiz no final dos anos 90 para o suplemento DNA. Isabel Galriça Neto, na altura com 37 anos, dirigia em Odivelas uma equipa – de enfermeiros, de assistentes sociais, de fisioterapeutas, de psicólogos - que visitava a casa das pessoas em estado terminal. 

 

O resto aqui

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publicado às 17:43

Já Está no Sistema

por Nuno Costa Santos, em 27.03.14

“Eu não posso fazer nada. Já está no sistema.” No outro dia ouvi esta frase, pronunciada por uma funcionária da EMEL perante um cidadão que, aflito, alegava não ter dinheiro suficiente para pagar a taxa de desbloqueamento da viatura. 

“Eu não posso fazer nada. Já está no sistema.” Eis uma sentença que nos caracteriza, a nós, portugueses. A partir do momento em que entra no sistema nada podemos fazer. O sistema é que manda. Mas não dá para carregar num botão? Não, o sistema não gosta de ser incomodado com botões. 

Podemos ir mais longe, podemos. No sentimento passa-se o mesmo. Quantas vezes não ouvimos amigos e conhecidos a dizerem, por outras palavras, a mensagem contida naquela frase? Ficamos reféns a partir do instante em que o nosso sistema é capturado por um motim emocional.

 

O resto aqui:

 

 

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publicado às 17:38

Notícia

por Nuno Costa Santos, em 27.03.14

Informa-se o leitorado deste território que agora sou cronista da revista Sábado. Diário e no corpo da revista. O texto diário pode ser encontrado aqui

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publicado às 17:35

Em Câmara Lenta como na TV

por Nuno Costa Santos, em 24.03.14

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publicado às 13:33

Musical no Martim Moniz

por Nuno Costa Santos, em 20.03.14

 

 

 

 

Cada um tem o seu sonho. Alimentei durante anos o delírio de realizar um musical no Martim Moniz. Aqui fica a crónica em vídeo com a participação, entre outros, do David Almeida, do Diogo Batáguas e do meu querido Pedro Múrias - que anda a ver isto tudo com o gozo com que sempre acompanhou as coisinhas da vida.

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publicado às 20:29

Crescer numa ilha

por Nuno Costa Santos, em 18.03.14

Hoje a Isabel Gomes e eu tínhamos uma entrevista marcada com José Medeiros Ferreira. Medeiros Ferreira justificou a escolha deste dia de um modo lacónico e belo: gostava muito de terças-feiras. Morreu sem que tivéssemos podido falado com ele de um modo mais pessoal, mais íntimo. Que passava por um regresso necessário à infância e à adolescência.

 

Agora que estou em casa, defronte do computador, recordo-me de um artigo que escreveu chamado "A Aprendizagem Insular da Cultura", onde, a partir de uma formulação feliz, afirma a importância da sua condição de ilhéu e das suas experiências na ilha de São Miguel para a forma como entendia o mundo.

 

Havia nele um orgulho açoriano, terreno e equilibrado, culto, bem-humorado.

 

Um dos pontos mais importantes desse artigo é a afirmação da necessidade que o insular tem de "ir mais além". De exercer a sua curiosidade, de olhar o mundo a partir da sua condição de autonomia e isolamento, de cruzar a tradição com a inovação. A partir de certa altura do texto faz a narrativa da forma como se foi erguendo como "homem de cultura", nunca esquecendo a dimensão do interesse futebolístico (chega a afirmar, muito ao seu estilo, "Até aos 15 anos fui muito pouco intelectual!").

 

Entre 1948 e 1954 viveu em Vila Franca do Campo e foi aí que semeou a curiosidade pelo cinema ("Ainda me lembro de lá ter visto filmes como "Terceiro Homem", o "Homem da Torre Eiffel", "A Vida de Berlioz" e mesmo alguns Charlots que depois me serviriam de inspiração para uma ousada conferência sobre Charlie Chaplin no círculo 'Antero de Quental'). Na altura da entrada no liceu, foi viver para a Fajã de Cima com os avós, conviveu com muitos locais e, quando o liceu encerrava portas, passou a cruzar experiências com muita gente "de fora da cidade" (como se diz em São Miguel).

 

A dado momento nasceu a vontade de, convocado por Viriato Madeira e Cristóvão de Aguiar, devorar "imensa literatura" numa biblioteca ainda com separação de sexos, de saber o que se passava "lá fora" através da rádio, de ouvir música. E de discutir ideias, uma das suas vocações maiores - de debater assuntos filosóficos, políticos, desportivos.

 

Na vivência no liceu, que ultrapassou o campeonato escolar, deixou-se marcar por alguns professores, conheceu e cruzou-se com muitos elementos que mais tarde se destacaram em áreas diversas e que com ele partilharam essa aprendizagem insular da cultura. Ah, e deixou crescer a barba "para impressionar as pessoas".

 

Durante a crise estudantil em Lisboa, achou por bem manter nos plenários uma evidente pronúncia micaelense. Hoje morreu um português que nunca se esqueceu de onde tinha chegado.

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publicado às 21:24

As banalidades essenciais

por Nuno Costa Santos, em 16.03.14

A vida é um cliché. Não há volta a dar. Do nascimento à morte vão acontecendo episódios e sentimentos que se repetem em muitos corações. Por isso não percebo este adiantamento mental que se pronuncia em cada esquina: "Ah, isso é um cliché!". Ah pois é.

Os grandes temas que marcam a vida são quase sempre os mesmos e a forma como reagimos aos mesmos repete-se. Alguns: o amor, a amizade, as relações familiares, o medo, a esperança, o sexo, o desejo, a culpa, a relação com a transcendência (ou a ausência dela), a ansiedade, a redenção, a infância que fica estacionada até ao fim em cada um de nós.

 

Andamos sempre a falar do mesmo, com os termos de sempre? As histórias em que nos metemos vão-se repetindo? Sim, sim. A vida é isto, meus queridos avaliadores de clichés (há muitos, com cédula profissional). Se quiserem outra narrativa comprem outro jogo de computador. Este tem níveis parecidos e lugares comuns. É urgente deixar a frase: "Sei que isto é um cliché mas".

 

Um tipo está na boa, com os assuntos arrumados, e, sem que tire senha, acontece-lhe uma peripécia. É despedido, tem um desastre, apaixona-se. Torna-se ridículo no SMS quando se enamora, fica sentimental nas palavras quando se torna avô, fala de felicidade quando se mete em encrencas, chora quando espera um filho emigrado que vem passar as férias em casa.

 

Sim, o homem é um cliché ambulante. Na acção e no verbo. E alguma da melhor arte - aquela que é classificada de "cliché" pelos adiantados mentais - reflecte este caos repetido em que nos desorganizamos.

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publicado às 20:37

Pessoas

por Nuno Costa Santos, em 15.03.14

Por que é que culpabilizamos tanto os nossos pais? Por que é que lhes atribuímos a culpa por aquilo que não nos orgulhamos de ser? É uma generalização, bem sei. Mas uma generalização que se torna necessária por me rodear de tanta gente que gasta a vida a apontar o dedo aos pais (sim, por vezes sucumbo também à armadilha). Haverá teorias psicológicas muitas sobre o assunto mas hoje não estou aqui para estender teorias.

Estou aqui antes de mais para deixar um comentário que encontrei num jornal inglês, feito por Ben Watt, aquela parte da banda Everything But The Girl que se apaga para deixar brilhar a discrição de Tracey Thorn. Ben encontrou as cartas secretas de amor trocadas entre os pais (o pai já morreu e a mãe está em processo de demência) e sentiu que mereciam a atenção da sua escrita. Queria conhecer os pais como pessoas.

Numa entrevista disse palavras simples, a propósito do lançamento desse livro, "Romany and Tom", mas que tantos de nós, filhos, temos dificuldade em dizer:

"When you are young you are going through your own golden years. Then you reach the point where you see you, too, have crested the hill. Perhaps that is when you reflect. You look at your parents for the first time and see that the people we judge are just ordinary human beings trying to do their best, altered by all the experiences they have had, so many of which we have never known, still fighting their way through just as you are."

Há quem, com alguma evidência, não saiba estar à altura das tarefas paternas. Mas acredito que a maior parte dos pais entra na categoria lembrada por Ben Watt: a de pessoas que se enganaram e se enganam quando nos educaram e que só querem ser felizes, como nós. Ao amadurecer, ao envelhecer, descobriu o código da caixa-forte da empatia e da gratidão. Quantos serão capazes dessa procura?

 

 

 

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publicado às 10:09

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