Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Memória do Meu Pai

por Nuno Costa Santos, em 10.02.14

Todos os velhos que vejo
Recordam-me meu pai,
Quando se apaixonou pela morte,
Em tempos, quando se juntavam as medas.

Aquele homem que vi em Gardiner Street 
Caído na berma foi um deles,
Olhou-me fixo, de esguelha,
Eu podia ter sido seu filho.

E lembro-me do músico,
Das suas fífias à rabeca,
Em Bayswater, Londres,
Também ele me lançou o enigma.

Todos os velhos que vejo,
Em tempo cor de Outubro,
Parecem dizer-me:
"Em tempos fui teu pai".

Patrick Kavanagh, "Estradas Secundárias - Doze Poetas Irlandeses" (Artefacto)

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:20

Ter um fraquinho

por Nuno Costa Santos, em 10.02.14

Gosto da expressão "ter um fraquinho", talvez em vias de extinção. O Mateus tem um fraquinho pela Sónia. A Rita tem um fraquinho pelo Tó. O Júlio tem um fraquinho pela Ana Maria. A Ana Maria não sabe disso. Que coisa bonita, essa de ter um fraquinho. Que expressão liceal. Inocente. Daqueles que se comentavam nas corredores das escolas e que começavam quase sempre por "acho". Acho que a Mariana tem um fraquinho pelo André. 

"Ter um fraquinho" é um sentimento que ainda não se consegue definir. Pode ser o início de um sentimento mais forte mas pode também nunca crescer. Ainda não se sabe o que é. Se fosse um "fortinho" já não teria tanta graça. 

Muitos adultos, apesar de não o assumirem, tem fraquinhos. Mesmo que mantenham um relacionamento de anos. Um fraquinho que só se confessa aos melhores amigos. Ou que cala para sempre, até ao último suspiro. O português suave que habita em muitos de nós é tão dado ao fado como é um pinga-amorzinho. Tem fraquinhos em cada encontro. Fraquinhos à primeira vista. Ou fraquinhos que durante anos e nunca são consumados ou confidenciados.

Os jornais de hoje falam de um relacionamento entre Obama e a Beyoncé. Se calhar os dois apenas têm um fraquinho um pelo outro. Que deve ser respeitado. O fraquinho é tão puro e inofensivo que não deve vir em manchetes. Não chega a ser um perfume. É o indício de um perfume. Uma flor que se ergue e que pode nunca ser oferecida. Um olhar que se desvia por timidez. Tem a ver com os primeiros amores mas pode acontecer na saleta de um lar da terceira idade. 

Não é um aperto no peito, apenas faz comichão. É o seu lado inconsequente que o torna tão digno de ternura. Não é uma paixão. Não motiva dramas amorosos de faca e alguidar. É uma paixoneta, uma inclinação misteriosa. Levezinha. Não se sabe de onde vem. Não se sabe para onde vai. E é tão mais bonito quanto mais secreto for.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 19:06

Ford Ácido

por Nuno Costa Santos, em 09.02.14

Tenho transportado na mochila o romance "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo (O Lado Esquerdo Editora). Além de trazer uma artilharia literária potente, dá sempre jeito quando vou ter com figuras que não me inspiram a mais luminosa das simpatias. Mais do que as histórias, as viagens – pela Roménia, pelo Vietname - e as personagens, ficou-me a energia do tom do livro, que não encontro com tanta frequência na novíssima literatura portuguesa: um fulgor descomplexado, uma vocação para a frase crua de efeito satírico, uma especulação de cronista livre,
uma mundana deambulação sem sinal de parábola.

Vejo aqui uma influência de alguma literatura americana, no sentido mais coloquial e sem berloques do termo (a epígrafe é de Philipp Meyer, autor de "Ferrugem Americana"). Fala-se do regresso à terra, da vida numa pequena cidade que quer ser maior do que é, de políticos que contratam bloggers para escreverem comentários semanais, da bancarrota de países e das relações, de presidentes de câmara sem dimensão, das mamas da Mafalda, a funcionária da biblioteca. E de bebedeiras. Vocês sabem que sou pelas frases, mesmo tendo a consciência de que há romances maiores que as dispensam. Quando as há, colecciono-as. Guardei algumas, de uma estirpe literariamente incorrecta, no masculino e no feminino:

- "No que concerne à líbido, os homens tendem a ser trolhas na hora de a exprimir".

- "Pensei ingenuamente que uma vida difícil tirava o ânimo da cópula, mas estava-me a esquecer da taxa de natalidade nos países do terceiro mundo".

- "Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável".

- "O teatro impúdico e repugnante da intimidade alheia".

- "Creio que o beijei mesmo como quem esmurra, com igual raiva, igual necessidade de ferir, de causar sofrimento, de humilhar, de vencer, ficar por cima”.

- “Que porra sabemos nós do que pensávamos e sentíamos na adolescência?”.


Existe mais concisa acidez em “Os Idiotas” – com referências sem interlúdios à cultura pop, a filmes com George Clooney sobre despedimentos, aos AC/DC e ao "Creep" dos doutores Radiohead. Em cada passo sente-se uma voz vigiada, sempre disposta a sabotar o que registou uma linha antes, que se deixa transportar num Ford Capri 1300 de 1972, o mesmo que figura no desenho bem sacado da capa.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:05

O Cinismo Assistido

por Nuno Costa Santos, em 08.02.14

Diz-se aqui no bairro com terno humor que deixámos de ser um povo de mirones para passarmos a ser um povo de Mirónes. E, sim, é provável que haja, por diversos motivos, algum exagero nacional por causa de ideia da venda dos quadros de Miró. Mas não é essa a temática de hoje. Vem-se aqui tratar de cinismo, um cinismo que infecta as esquinas e as colunas de opinião. Ontem cruzei-me com um, praticado por um prosador admirável e desistente, o senhor Vasco Pulido Valente.

No seu artigo das sextas não só escarnece do movimento indignado contra a venda dos quadros como também volta a sublinhar a ignorância crónica de, recorrendo ao pensamento-base do escriba, uma gentalha ignara que tanto o aborrece há séculos. Vamos lá ver se me sei explicar: caso me dessem a escolher entre a equipa que, isolada na sua literata caverna, destila o seu sarcasmo sobre a possibilidade de construir um país melhor e aquela que, sem olhar os múltiplos lados da questão, se irrita com a saída do território dos quadros do pintor espanhol escolheria a segunda.

O cinismo é uma forma de suicídio que não me apetece experimentar. Prefiro que o meu país se vá corrigindo aos poucos, com prudência e vontade – até porque, se me permitirem a revelação, o amo. Tenho filhos, sim, e a estes quero oferecer uma luz que não se apaga, como na canção dos Smiths. Mas não tenho só filhos: tenho uma data de gente de várias gerações com a qual partilho o mesmo céu e com a qual gostaria de habitar uma vida menos escarpada, mais enriquecida no campeonato social e cultural. 

Se não há um “verdadeiro museu de arte moderna, decentemente organizado”, para citar o colunista, que se lute então para montar um. Não contem comigo para a causa do contentamento com o nível mais baixo em que vamos estacionando. Para usar o jargão do clube, a ideia de que à “piolheira” se deve dar mais piolhos não colhe no meu apartamento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 18:33

Os Tiques

por Nuno Costa Santos, em 06.02.14

Dependemos dos outros até nos tiques. Há bebés com tiques mas os tiques dos adultos são pequenos vícios adquiridos nas voltas da vidinha. Cada um de nós tem tiques faciais e gestuais que a maior parte das vezes vai buscar a alguém. Haverá maior possibilidade de união entre os povos e as classes sociais do que o tique? No tique não há divisões. Nada tem a ver com maneiras à mesa nem tratamentos por "man" ou por "você". Tique que é tique não se controla. A coisa de mexer o queixo de forma esquisita e de começar a enrolar um cabelinho solto com o indicador da mão esquerda acontece a qualquer um nas situações mais inesperadas e nos sítios mais diversos. Nos condomínios e nos bairros sociais. Numa reunião dos Verdes no Jardim da Estrela ou num encontro, com muitos cachimbos, dos senadores do PSD.

Mas há um aspecto que torna os tiques ainda mais deliciosos. Podemos ir buscar um tique a um inimigo - a um tipo ou a uma tipa que não gramamos. É extraordinário e delicioso. Se Deus existir (ele que será figura para tiques muitos, como o de cofiar a barba de dois em dois segundos), deve rir-se que nem um perdido com estas situações. Uma pessoa odeia o chefe da repartição mas tem a mania de levantar a sobrancelha direita da mesmíssima forma que ele mexe. Ou a mania de pentear a marrafa de uma forma compulsiva, como o faz aquele colega da secundária mais irritante - e que há quatro semanas pediu-nos misteriosamente amizade no Facebook. Chega a ser comovente.

Proponho que se faça um levantamento de tiques em cada bairro, em cada região. Um estudo com adequada profundidade. A Fundação Francisco Manuel dos Santos podia pegar no assunto, já que estuda tudo e mais alguma coisa. Um concurso televisivo de tiques também seria bom. Ganhava o cidadão com o tique mais original ou mais estranho. As Sete Maravilhas do Tique. Os tiques humanizam-nos. Tornam-nos contingentes. Desprotegem-nos nas recepções a chefes de Estado. Tal como acontece com os sotaques. Mas isso é matéria para outra crónica urgente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 18:49

Escritor Manso Não É Escritor

por Nuno Costa Santos, em 05.02.14

O escritor, quando é autêntico, corre risco. De vida, sim. Escrever com autencidade sobre uma terra e os seus habitantes, mesmo que maquilhados como personagens, não é apenas dizer "coisas bonitas" sobre a terra, para citar o poeta Artur Jorge. É também revelar matéria desagradável, sombras, ervas daninhas. Falar das contradições das pessoas e das sociedades, nomear gestos que não ficam bem na fotografia, ultrapassar a dimensão de postal. Quem só escreve o bonitinho - no romance, na poesia, no ensaio, na crónica, no aforismo - está a desrespeitar a literatura e aquilo que merece consagrar: o caos de existir. A capacidade que cada um tem de se superar num gesto e de se despenhar no gesto seguinte. De amar e de não cumprimentar o vizinho. Desde os gregos que é assim. A maior armadilha da arte acontece quando quer ser uma forma de dourar a pílula.

O escritor não é o turista. A literatura não é mandar postais. Nem Eça nem Evelyn Waugh, por exemplo, que escreveram sobre terras identificáveis por qualquer cidadão desnorteado, se preocuparam em mandar as nódoas para debaixo do tapete. Nos seus túmulos deverão estar solidários com o pobre Murakami que, segundo as notícias, está a ser alvo da ira dos habitantes de um território onde situou uma história, fazendo a dado momento uma notinha incómoda - nem toca em qualquer ferida! - que muito irritou os locais. Uma das personagens de uma narrativa sua deu a entender que é costume os cidadãos mandarem as cigarradas acesas pelas janelas das viaturas. Escândalo. Exigência de pedido de desculpa. Condenação marcada.

O episódio parece menor mas não é tão raro. Há muito escritor que já sofreu e sofre represálias institucionais e pessoais por anotações de costumes que depois não podem ser transferidas para os folhetos da junta. Há aqui vários neste átrio internético: podem fazer as suas revelações, se acharem por bem. Já sabes, Haruki: da próxima vez limita-te a publicar polaroids de florzinhas e borboletas. O escritor inofensivo tem sempre votos de louvor da assembleia municipal.

 

http://www.telegraph.co.uk/culture/books/booknews/10618687/Haruki-Murakami-has-trashed-our-towns-reputation-say-angry-town-council.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:56

Soprar as velas

por Nuno Costa Santos, em 04.02.14

O facebook faz dez anos e merece que sopremos as velas do bolo. No início o verbo que guardava para o facebook era, como aconteceu com tantos de nós, desdenhar. Mas depois fui sendo conquistado. Tenho-o substituído pelo verbo partilhar. Há aqui partilha – sincera, genuína. Claro que também há egocentrismo, exibicionismo, indignadismo. Mas nada que não existisse nos corações. Aqui apenas é revelado de uma forma mais franca e aberta.

Há um lado que à primeira vista pode parecer assustador mas que agora acho digno de empatia. No facebook a necessidade de amor que todos sentimos torna-se mais evidente. E isso é bom. Mais vale que esse dado fique claro numa rede social do que constituir uma necessidade clandestina a revelar nos gabinetes dos psicólogos. Precisamos todos de mimo mas não sabíamos que precisávamos de tanto mimo. Atenções – também sob a forma de discordâncias, embrulhadas em mau feitio – por parte de novos comparsas ou daquelas pessoas que connosco partilharam a carteira na escola primária e no liceu. E ofensas porque há quem nunca tenha feito um like num post nosso ("mas porquê, pá?!").

Como bicho que pensa demais, continuo a alimentar as minhas reservas – e admito não me sentir mal com o sentimento. Mas são as mesmas reservas em relação a quem passa o dia a roer as unhas. O vício – que existe em muitos e não vale a pena ocultá-lo – é que pode escravizar e, se me permitem, não gosto de me ver escravizado e de ver outros escravizados. 

Um dado partilhado hoje no jornal Público diz que 45% dos facebookianos portugueses já apoiou uma qualquer causa nacional, mesmo que apenas através de um singelo gosto, “equivalente digital de um cartaz de protesto”. Percebo a importância desse gesto – e topo benefícios maiores na comprovada possibilidade de organizar manifestações através desta rede. Mas continuo a pensar que um like, essa forma breve de cumplicidade, não basta.

É importante continuar as descer as ruas, manifestar indignações cara a cara nos locais onde fazem falta, falar com as gentes da freguesia e do bairro, ser voluntário. Há dias disse que está tudo na net. E está. No meu caso com uma excepção, susceptível de desdobramentos e analogias vários: nem a minha avó nem a sua hérnia têm conta no facebook. E não há like que substitua a necessidade de sair da conta para me sentar durante uns minutinhos no sofá offline onde passa os dias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 12:24

A Arte de Não Fazer

por Nuno Costa Santos, em 04.02.14

Em “A Potência do Pensamento”, livro que a Relógio d’Água resolveu editar nestes dias de, como dizia O’Neill, “bestas céleres”, o filósofo italiano Giorgio Agamben volta a defender uma das suas boas obsessões: o homem é o único ser que pode fazer e pode não fazer. Sem essa liberdade está o caldo entornado. Bartleby, personagem de Melville, resumiu tudo numa frase elegante: "Preferia não o fazer". Resposta que convém dar a quem manda o cidadão realizar tarefas humilhantes no empregou ou ir viver para uma freguesia estrangeira.

A liberdade no campeonato artístico também pode ser olhada sob esse ângulo simples e essencial - como defendeu em termos literários o Vila-Matas de "Bartleby & Companhia". Em 1997, o escritor português José Cardoso Pires avisou, por exemplo, que “quem corre atrás de prémios acaba a levar pedradas, como quem corre atrás do público”. Existe, ainda aqui no burgo, o caso de Bernardo Soares, deambulante semi-heterónimo de Fernando Pessoa, que escreveu: “Cultivo o ódio à acção como uma flor de estufa”.O orgulho do não fazer existencial que acaba por se tornar num dos mais subversivos gestos do fazer literário, criador de um género novo, impuro. Agradeço a Soares ter decidido não fazer.

O italiano Cesar Pavese, escritor mais “clássico” mas ainda assim relacionável com esse Pessoa, escreveu um livro que é todo um programa de pensamento: “Trabalhar Cansa” . Escrever tanto – e tanto reflectir – cansava este escritor que labutou no período entre as duas grandes guerras mundiais. No seu diário, “Ofício de Viver”, no dia 21 de Julho de 1948, comentou esse cansaço dos homens: “Deseja-se ter um trabalho, para ter direito ao repouso”. Deseja-se fazer para ter direito a não fazer. 

Há também o egípcio Albert Cossery, de quem se comemoraram em 2013 cem anos do nascimento. Quando confrontado com o seguinte comentário do entrevistador Michel Mitrani (“Conversas Com Albert Cossery”) “o sono e a preguiça era um negócio próspero na sua família...”, respondeu no seu tom bartlebianamente provocador: “Ah sim! Foi mesmo a única coisa que o meu pai me ensinou!”. 

Noutro departamento ocorre-me o caso de Andy kaufman, que o universo de entretenimento onde se movia classificou de humorista, quando ele próprio negava sê-lo. De Kaufman o público esperava comédia imediata, segundo os cânones, e Kaufman preferiu não o fazer. Um importante momento dessa sabotagem aconteceu, como é conhecido, num número preparado para o talkshow de David Letterman durante o qual Kaufman fez uma alegada confissão sobre um período de divórcio pelo qual estava a passar – número este que termina com o pedido de ajuda financeira aos elementos do público e que é entrecortado por ataques de tosse vários, simuladores de uma doença de que poderia de facto padecer. 

Agamben tem sido citado, com consciência ou sem consciência, nestes dias de imposição do fazer porque sim. No primeiro dia do ano de 2014, o ensaísta Bob Brody escrevia o seguinte no artigo “Rip: All The Stories I Never Wrote”, publicado na revista “The Atlantic”: “(…) It’s taken me a long time to learn this—that sometimes the best course of action is inaction (…)”. Uma promessa de ano novo de não fazer. Extravagância necessária. Factor decisivo de uma liberdade que o homem merece procurar não perder.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:24

Já Não Há Mestres

por Nuno Costa Santos, em 02.02.14

Segui o percurso de Philip Seymour Hoffman com desordem e respeito. Existe "Magnólia", sim, um filme que guardo, mais do que pela performance de galácticos actores, pela bíblica queda de sapos e pela canção final de Aimee Mann cantada a várias vozes. Há um filme no qual Hoffman entrou e que ainda rola na minha melómana cachimónia. Foi lembrado hoje pelo meu amigo Jorge: "Almost Famous", história, como se lembram, de um rapaz de 15 anos que começa a fazer recensões para a Rolling Stone e acompanha uma banda da única forma possível para um rapaz de 15 anos: apaixonada, cega, sem distanciamento. Comoveu-me nessa personagem de crítico, inspirada em Lester Bangs, a sua vocação romântica, disponível para aconselhar o moço a manter a distância ética em relação à banda. Ficou-me o relacionamento mestre-discípulo retratado nessa ligação.

Já não há nós assim nestes dias funcionais. A disponibilidade para ser mestre, a humildade para ser discípulo. No jornalismo, na literatura, na ciência, na academia. No outro dia tive um vislumbre dessa possibilidade com um professor universitário de Filosofia e fiquei com uma satisfação de um William Miller, o moço de "Quase Famosos". Comunicou-me que lhe podia pedir sugestões de livros quando achasse pertinente. Senti ali uma abertura de mestre. Deverei aproveitá-la, sim. Recordo-me também de um gesto de outro professor de Filosofia, Sá Couto, no 12.º ano - do instante em que, no final de aula, deixou em cima da mesa livros de poemas de Goethe e de Nietzsche com uma mensagem: quem quisesse que os levasse para casa. Uma atitude de mestre dirigida à turma toda. 

O mestre é aquele que inspira. Hoje não há tempo nem vontade para inspirações. Sobra o tempo para classificar - para aprovar ou desaprovar. O crítico representado Philip Seymour Hoffman, solitário - e deve haver poucas profissões tão solitárias como a de crítico -, deu-me um exemplo maior, também ele inspirador, da importância de um mestre na vida de alguém que anda à procura. No dia da sua morte agradeço-lhe por, de um modo tão talentoso e convincente, me ter sintonizado com essa quimera.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 23:07

Fernando Assis Pacheco

por Nuno Costa Santos, em 01.02.14

 

  1. Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco faz anos hoje - o faria fica para o noticiário. 77. E com ele faz anos uma escrita capaz de dar a volta ao jogo morno dos dias. Quando penso em Assis Pacheco penso num jogador que praticava um futebol jornalístico-literário com muita verve. Capaz de gozar o mundo, de se meter consigo próprio e de sentir quase tudo com uma melancolia essencial de quem sabia que, com tanto risco e jogo, iria bater a bota numa hora não muito distante. 

    Tinha técnica, muita, mas sabia escondê-la. Só acontece aos que a dominam. Sobretudo não a exibia. Mas, não nos enganemos, tinha a espaços o truculento orgulho dos que se sabiam de grande calibre. Gostava da conversa. Toda a sua poesia era uma conversa e as suas crónicas (quando é que a Assírio resolve, de uma vez por todas, editá-las?) conversas eram. As entrevistas também - tenho aqui em cima da mesa os "Retratos Falados", com figuras como Amália, Jordão, Carlos Paredes, Herman José, Soares e todas elas têm perguntas e comentários de quem está aqui para o bate-papo, não para entalar o vizinho. 

    Já não abria “A Musa Irregular” há um tempinho – se calhar por ter andado com o livro tanto tempo durante uma investida biográfica que agradeço como um dos momentos bem-aventurados da jornada que me cabe. No primeiro livro declarou uma decisão categórica: “Não posso, não quero, não me vou deixar/ transformar num poeta azedo”. Pois. 

    Os azedos não vivem, não se apaixonam, não têm tesão, não aproveitam o calor de uma mesa de amigos, não arriscam um bom petisco e um melhor vinho, não vão à bola assistir aos jogos do Atlético, não recebem uma filha na rua com uma garrafa de champanhe, não contam histórias de um Macaco Celestiano ao filho, não homenageiam um avô galego que veio labutar para Portugal, não sofrem o que sofreu com uma guerra que lhe entrou para os ossos e nunca saiu, não amam lugares como Pardilhó, Cabo Verde, o Brasil e a Galiza.

    Os azedos não celebram a Nini, rapariga que lhe deu uma tampa, não fazem duetos com melros, não escrevem poemas às putas da avenida nem ao cu de Maruxa, moça de Ourense, não se embebedam “como um Baco de aldeia”, não são injustos e adolescentes retardados como dizia ser. 
    E não escrevem o que escreveu com uma alegria triste, a única possível para quem anda nos relvados com lucidez. 

    Dizia-se de uma contraditória substância: “inteligente, esquizóide, reinadio, arrebatado, ponderado e extravagante, embora à vez, para não chatear o indígena”. Não há Assis escritor sem Assis pessoa. Escrevia com aquele toque de bola na sua HCESA porque vivia com aquele toque de bola. Eras assim, Fernando Assis Pacheco, homem que uma vez vi passar na Passos Manuel com uma daquelas camisas de cores africanas, berrantes para uma Lisboa de casacos cinza. 

    “(...) sou pelo amor,/suas virtudes e armas/contra a melancolia (...)”. Anotado no caderninho. “(...) Peçam a grandiloquência a outros/ acho-a pulha no estado actual da economia (...)”. Já comprei há tanto. “É arriscado ser-se um homem”. É preciso viver com um pé na Primavera. Como tu, dizer adeus a tudo isto com uma saudade burra, muito burra. Celebre-se o Assis no dia em que faz anos. E, já agora, nos séculos que faltam.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 23:24

Pág. 3/3



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D