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Esquecimento

por Nuno Costa Santos, em 16.02.14

Vivemos um tempo estafado em que a frase-chave é: "já está tudo feito". Sem ponto de exclamação, com o enfado de quem traz a sapiência no verbo. De quem atravessou os séculos só para deixar esse lembrete. Um tipo tenta arriscar um desenho, uma dança, uma composição, um poema, uma crónica, uma escultura e há sempre alguém que aparece, sentado numa cadeirinha, a comentar: "Deixa-te lá disso! Não tem novidade nenhuma".

 

O bocejo já não é só lançado aos adultos. As crianças já levam com isso. Com essa pose, com esse azedume, com essa desistência. E quem agora chega não merece essa renúncia. Está aqui há pouco tempo e já lhe é apresentada uma factura seminal. A pose de quem analisa. Só que quem muito analisa esquece-se de um ponto. Aquilo que com ligeireza se classifica de repetição, desde que tenha um coração novo e exigente por detrás, pode ser uma forma de inventar.

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publicado às 16:27

?

por Nuno Costa Santos, em 16.02.14

A pergunta mais inútil não é "haverá vida depois da morte?". A pergunta mais inútil é "o vinho da casa é bom?".

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publicado às 16:23

O motivo

por Nuno Costa Santos, em 16.02.14

Já percebi qual é o motivo do sucesso do facebook. No facebook não existe hálito.

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publicado às 16:18

A Cenazinha do Ódio

por Nuno Costa Santos, em 16.02.14

 Há uma coisa em que os portugueses são especialistas: em impor os seus ódios. Uma pessoa elogia alguém e tem de levar com o batalhão de ódios e más opiniões que outros têm em relação a essa pessoa.  “O Marco é um tipo muito fixe!”. Comentário instantâneo em tom indignado: “O Marco?! Esse gajo é do piorio! Ainda no outro dia soube que gamou o sócio e meteu-se com a mulher do pr...imo direito”. "Acho que o Sebastião foi sincero". "Acreditas nisso? O Sebastião é um pulha. Já na primaria era um pulha e vai ser um pulha até morrer. Até o pai dele acha isso!". Até pode ser verdade mas deixem-me gramar o Marco e acreditar no Sebastião por um instante. Pode ser?


É frequente por aqui sentir-se uma energia diabólica só porque se é amigo de alguém que suscita um ódio noutro amigo. Ou num conhecido. Ou pior: nalguém que não se conhece de parte nenhuma.  “O Alberto não tem boa opinião de ti porque és amigo do Mário”. Não tem boa opinião de mim? Talvez seja boa ideia um dia tomarmos um daiquiri e comentarmos a "Poética" de Aristóteles antes de formar uma opinião sobre mim.

E se eu passar a ser amigo da Isidora, que também não cabe nos eleitos da simpatia do Alberto, ele vai passar o Renault por cima do meu lombo? Provável que sim. O melhor é começar a ter mais cuidado a atravessar a rua.

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publicado às 16:03

Mler Ife

por Nuno Costa Santos, em 16.02.14


Portugal teve e tem alguns grupos sem parentesco possível de tão originais e inimitáveis que são. Isso enche-me de alegria - gosto do meu país e daquilo que melhor faz de honesto e transcendente. Bandas com o coração aberto ao mundo mas com vontade de serem genuínas. Uma delas chama-se Mler Ife Dada e deram um concerto na sexta no CCB a propósito dos seus 30 anos de existência. Agradeço a isto de estar vivo o ter estado presente numa celebração de um presente cheio de energia, de power, de regabofe criativo.


A banda que habitou o palco, sob a batuta tão liberta como profissional de Nuno Rebelo, revelou-se afinadíssima e tanto se mostrou capaz do melhor funk como do melhor free jazz como da melhor música experimental como do melhor noise.  Mas acima de tudo como da melhor alma própria. A voz de Anabela Duarte e sua capacidade de swingar e de surfar numa espécie de canto lírico delirante estão mais do que em forma.


Imensa malta conhecida no público: muita gente de bandas, muita rapaziada de energias e vocações diversas, alguma dela com pormenores na vestimenta ao nível das roupas de Anabela, com uma gratidão a um universo Bairro Alto/Frágil anos 80 mas também uma urgência aqui e agora. A plateia, muito atenta do início ao fim, soltou a franga e o esqueleto para a coreografia final ao som da música que está aqui em baixo. Aí foi a festa. Mler Ife sempre!






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publicado às 13:14

Guardar

por Nuno Costa Santos, em 16.02.14
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por iss...o melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que um pássaro sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.
António Cícero, "Guardar" (edições Quasi)

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publicado às 00:08

Amor. O que é isso?

por Nuno Costa Santos, em 15.02.14
Escrever sobre o amor é um dos maiores atrevimentos a que um ser humano se pode permitir. O amor é tão vital e tem tantas formas de se manifestar que é um delírio querer enclausurá-lo num único entendimento. Não compro a ideia de haver uma definição de amor. Mas admito a procura. As definições várias. As tentativas de cada um. Os dardos lançados contra um coração que só permite aproximações. Tenho tentado a minha sorte num documento do Word:

O amor é uma interrupção no medo e na linguagem.

O amor é levar o lixo lá fora numa noite de Inverno.

O amor é o tempo enganar os meteorologistas.

O amor é um poeta à volta do poema.

O amor é entrar para o quadro de alguém.

O amor é o sorriso da repartição.

O amor é um cadastro feliz.

O amor é um comando que se partilha.

O amor é uma insónia que se agradece.

O amor é fazer logoff.

O amor é um pontapé de bicicleta.

O amor é a câmara lenta da paixão.

O amor é uma marca que não se pode registar.

O amor é isto e aquilo. E também isso.

O amor é o avesso da definição. 

O amor é a definição.

O amor é a desculpa do matemático.

O amor é um inventário.

O amor é um inventário feito em silêncio. Até sei lá quando.

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publicado às 00:04

A Mania de Riscar Tudo

por Nuno Costa Santos, em 14.02.14



Uma crónica sobre pivôs que riscam as notícias dos jornais do dia seguinte - e que se transforma numa vontade de riscar o mundo todo. Uma memória que foi recuperada depois de um encontro com o Pedro Mouzinho, que foi quem editou tudo isto.

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publicado às 08:28

Entre o Amor e a Pasta de Dentes

por Nuno Costa Santos, em 12.02.14

Faz hoje 30 anos que morreu. Em 26 de Agosto comemoram-se 100 anos do seu nascimento. Julio Cortázar pôs em prática os versos de Manuel Bandeira: "Estou farto do lirismo comedido/ do lirismo comportado/ Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente/ [protocolo e manifestações de apreço ao Sr.director (...)". A sua escrita é experiência, é impureza, é brincadeira entre géneros, é jogo, é finta. 

Nos seus livros dava instruções para cantar, para subir uma escada, para chorar. Misturava poemas com anúncios. Metia-se com "os sérios" da cultura, achava que em cada escola latino-americana devia haver uma fotografia de Buster Keaton, considerava urgente despistar quem procura o acesso aos tesouros com ar solene. 

Irritava-se com a idolatria e a reverência pelos génios artísticos ("O que é que a tua admiração interessava a van Gogh? O que ele queria era a tua cumplicidade, que tentasses olhar como ele olhava"). Cedo percebeu que nada vale nomear os grandes desígnios e os grandes sentimentos esquecendo o quotidiano que está aqui e merece uma palavra. É entre o amor e a pasta de dentes que se pode encontrar o homem. Cortázar escreveu jazz sobre o assunto.

 

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publicado às 13:03

Lugar para Ficar

por Nuno Costa Santos, em 11.02.14

 

 


Somos do recanto onde queremos morar depois de morrermos. É esse o sítio que devia figurar nos bilhetes de identidade. “Quando morrer quero ficar ali. Porque sou dali”. Ser dali é um sentimento, a emoção de quem foi capturado por um espaço depois de uma vivência importante ou da leitura de um livro de poemas ou da audição da orquestra dos pássaros lá da terra. Não somos da superfície onde nascemos mas desse lugar onde desejamos ser enterrados ou onde as nossas cinzas podem ser guardadas ou espalhadas – aquele que pode ficar consagrado num testamento escrito ou noutro testamento mais significativo, comentado em casa ou no café, junto ao cheiro dos bolos da manhã. 

Muitos não têm a possibilidade de concretizar o desejo. Mas só o facto de lhes ter passado pela ideia a imagem de um lugar torna-os desse casulo. Os que que não se importam com o assunto também entram no jogo. A morte, para eles, é o carimbo final do absurdo de viver. É-lhes igual: podem ficar no sítio onde vivem, no território onde nasceram ou numa estepe distante. O não quererem um sentido torna-se um sentido, uma possibilidade tão vasta como a liberdade. Tornam-se de toda a parte porque é em toda parte que querem ficar.

Li que as cinzas de Natália Correia vão ser transladadas para São Miguel, desejo manifestado em vida pela escritora. Transladadas é uma palavra feia. Vão para casa, como o velho actor interpretado por Michel Piccoli no filme de Manoel de Oliveira. Estavam há 20 anos no cemitério dos Prazeres e seguem agora viagem para a freguesia da Fajã de Baixo, de onde era natural. Mas Natália, a desobediente, poderia ter querido ir para o Cairo, para Vigo ou para a madeirense Ilha de Circe, “bela como uma ruína do paraíso”, título de um livro seu, de 1983. E, caso fosse esse o capricho, seria aí e só aí que poderíamos deixar um extravagante ramo de flores, junto ao vulcão que habitava essa mulher.

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publicado às 20:31



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