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Dos Daltonic Brothers

por Nuno Costa Santos, em 20.04.17

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publicado às 10:34

Be Something

por Nuno Costa Santos, em 17.04.17

Alynda Lee Segarra, comovente, épica, com a porto-riquenha "gente del barrio". Inclui uma citação de Beatles mas podia citar Seu Jorge, recriando Bowie. Qualquer coisa como "sempre em frente, nunca pra trás".

 

 

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publicado às 19:49

Mistério da Humanidade

por Nuno Costa Santos, em 10.04.17

O que é que leva alguém a querer ser árbitro? Continua a ser dos maiores mistérios da humanidade (ao pé disto a existência ou não de Deus é um pormenor). Não há árbitros amados. Há, aliás, três condições que não se deseja a ninguém: árbitro, ministro da Educação e escultor do busto do Ronaldo.

Não há cadernetas de árbitros. Nenhum português sai à rua para celebrar a passagem de um autocarro cheio de árbitros com garrafas de champanhe na mão. Nenhum árbitro dá nome sequer a um aeródromo. E já lá vão 43 agressões só esta época. É por isso de saudar a coragem de quem se mantém em funções na arbitragem e quem as assume. Isto num momento em que o País se escandaliza com uma joelhada a um árbitro, como se o que marcasse o ambiente desportivo todas as semanas fosse a meditação transcendental.

Mais aqui.

 

 

 

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publicado às 12:21

Aqui da pastelaria

por Nuno Costa Santos, em 28.03.17

Havia um indivíduo bigodudo que dizia que a sua pátria era a língua portuguesa. A minha é outra. A minha é a pastelaria portuguesa. Escrevo em pastelarias. Garanto-vos: a crónica corre melhor quando escrita aqui, entre o empregado dos correios que todos os dias, à mesma hora, mastiga, com a maior das elegâncias, a sua salada de fruta e uma senhora que, ao fim da tarde, não resiste em vir comprovar que o éclair de ontem estava melhor do que o de hoje.

Lembro-me de Mário Cesariny, de cuja morte passam 10 anos, quando escreveu, num poema intitulado Pastelaria, "(…) afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo/ à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo (…)". A propósito: vi Cesariny, nos anos 90, num café, o Café Estádio, no Bairro Alto. Na altura não havia selfies. Quando tudo era possível não havia selfies.

Mais aqui.

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publicado às 23:45

Resumo

por Nuno Costa Santos, em 22.03.17

Pelo menos já ganhámos um título para uma revista à portuguesa: "Sexo em Eurogrupo".

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publicado às 00:16

Marlon James

por Nuno Costa Santos, em 20.03.17

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Quem sobreviver ao início, literária entrada a pés juntos, fica preparado para o resto do trágico festim. “Ouçam. Os mortos nunca param de falar. Talvez porque a morte não seja morte nenhuma, apenas ficar de castigo depois das aulas. Encontras-te com homens que morreram antes de ti, que passam o tempo a andar, embora sem destino, e ouve-los uivar e sussurrar, porque somos todos espíritos, ou pelo menos achamos que somos todos espíritos, mas na verdade o que somos é pessoas mortas”. Aqui não há salvação. Marlon James não é Raul Minh’Alma.
A narrativa vai-se desenhando à medida que as várias vozes que, “falando” na primeira pessoa, se vão juntando num coro violento e gira à volta de um acontecimento histórico: a tentativa de assassinato de Bob Marley, “aquele tipo do reggae, que se tornou mais popular do que o pão de forma”, na véspera de um concerto, acontecimento que não impede Marley, ferido no peito e num braço, de dar, dois dias depois, um concerto para 80 mil pessoas – o artista, apresentado como “O Cantor”, é descrito a certa altura como um “daqueles tipos que podia falar com Deus e o Diabo e conseguir que eles fizesse as pazes – até porque nenhum é casado”. É um violento épico, que viaja pelas três décadas seguintes no coração do universo dos gangues e políticos jamaicanos, no qual cabem dezenas de personagens, de testemunhas a traficantes de droga e de armas, passando por agentes da CIA, do FBI e jornalistas.
Pontuado de referências musicais – do ska ao rock, passando naturalmente pelo reggae - e com um ambiente tarantinesco, este é um romance de linguagem e só quem conseguir atravessar esta linguagem que, num jorro de desespero, destilando o seu desespero - aqui e ali atravessado de algum humor - conseguirá conseguirá sobreviver. Há frases mal construídas, palavras cortadas, matéria para enganar gralhistas. José Miguel Silva é o autor do gesto de tradução - heróico, sim - de fazer o português dançar ao som desta banda sonora das ruas, das casas e dos guetos da Jamaica. “O gueto é um cheiro. Um cheiro por vezes agradável: o pé de talco que as mulheres usam nos seios, Old Spice, English Leather e água de colónia Brut. O odor pesado a cabra recentemente abatida, a pimenta e pimentão numa sopa de cabeça de cabra. De novo a pimenta num frango picante. Um odor a químico de detergente, a manteiga de cacau, a ácido carbólico, sabão de lavanda, mijo fermentado e merda seca a correr pelas valetas. O cheiro de cordite de uma arma recém-disparada, de caca em fraldas de bebé. O odor metálico do sangue coagulado de um assassinato em plena rua, que permanece no local depois de o cadáver ter sido removido”. Entrevista ao autor aqui.

 

 

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publicado às 23:08

Aquele Grande Rio

por Nuno Costa Santos, em 20.03.17

Um disco recém-editado trouxe-me à memória Ruy Belo. É um dos meus poetas. Comecei a lê-lo depois de ter aterrado em Lisboa, na qualidade de pára-quedista açoriano. Fui seduzido, antes de mais, pelo humor do seu lirismo. Como neste “Epígrafe Para a Nossa Solidão”:

Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos

Depois, a propósito de um trabalho de documentário e de um artigo para a revista Ler, conheci outras facetas de Ruy Belo. A de filho da sua terra, São João da Ribeira, no Ribatejo. A de “vencido do catolicismo”. De crente que se foi desiludindo e ganhando melancolias. A de homem comprometido politicamente, elemento da CEUD e autor do poema “Portugal Futuro”.

A de filho também, que escreveu sobre o pai assim: “Era o meu pai era esse sonhador incorrigível/ sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias”. A de amante de futebol e de jogador, com o José Medeiros Ferreira, na equipa da Faculdade de Letras.

Mas voltemos à sua dimensão espiritual. José Tolentino Mendonça escreveu, num artigo magnífico, incluído no volume “O Hipopótamo de Deus”, o seguinte: “Talvez fosse agora tempo de começar a olhar esta poética naquilo que ela também é: aventura espiritual intensa como poucas (…) quase circularidade entre presença e silêncio, entre dúvida e crença”.

Manuel Fúria e os Náufragos acabam de editar um álbum, “Viva Fúria”, em que evocam Ruy Belo em dois temas: “Cala-te e Dança” e “Aquele Grande Rio”. Sim, “Aquele Grande Rio” celebra “Aquele Grande Rio Eufrates”, título do seu primeiro livro, de 1961. Ruy Belo, em 2017, numa pop que passei ontem no programa Cais de Encontro, do Antonio Sousa.

 

 

 

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publicado às 12:24

"Afogada na tua vergonha"

por Nuno Costa Santos, em 16.03.17

"Afogada na tua vergonha", com textos de Roberto Corte e Sarah Kane (sim, isto não é pa meninos), dramaturgia e encenação de João Rosa. Amor, violência, consumo, anúncios vintage, neurotransmissores, antidepressivos, solos de bateria, uma homenagem à coreografia dançante de Ian Curtis, fraseados poéticos sobre fundo rockeiro que trazem à memória Mão Morta, referências a Safo, uma frase: "a vida a comer-te bem comida". Cantos de maldoror de um homem e uma mulher para quem o romance se tornou numa espécie de filho bastardo do bullying. Um dos momentos da peça é aquele em que cai uma perche sobre as suas cabeças, a tentar registar o que devia ficar entre os dois mas que precisa de ser captado por um mundo que não faz sequer ideia o que é a intimidade. Catarina Gonçalves e Eduardo Frazão estão portentosos no pára-arranca deste jogo de verdades que doem. Na Comuna até domingo.

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publicado às 17:08

Vamos lá recomeçar

por Nuno Costa Santos, em 16.03.17

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Onésimo Teotónio Almeida, em "A Obsessão da Portugalidade" (Quetzal, 2017)

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publicado às 10:40

Notas a Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos Por Rui Lopo

por Nuno Costa Santos, em 20.07.16

 

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Não penso o que vai ser o pós-morte. Em vez disso, quero ficar. Quero saber o que é que ainda pode ser a vida, uma existência com engulhos mas ainda assim habitável e – por mais que a literatura a pinte com justiça num negro monocromático – é atravessada aqui e ali por pequenos milagres, alentos solares. (p.177)

Esta é uma estória sobre um avô e um neto. E a sua profundíssima ligação. O avô, João Pereira da Costa, está nos anos 40, ainda sem filhos, no Caramulo, exilado na montanha, segundo a sua expressão, tentando tratar-se de uma gravíssima tuberculose. Descreve o seu sofrimento físico e a angústia que o acompanha, a angústia de estar só, da improbabilidade da cura e da dúvida crescente sobre o seu lugar na sociedade e no mundo, sobre a impossibilidade da crença na religião tradicional, assim como sobre a inevitabilidade de enfrentar o que ela representa e o que a ela subjaz de mistério e de sentido. O avô escreve um relato que é uma carta ao futuro, pede a um descendente, que se interesse pela escrita, que se desloque aos Açores, a S. Miguel, a Ilha, para trazer de volta estórias do seu tempo. Por ventura, para as contrastar com aquelas que ele descreve nesse longo diário biográfico. Assim feito, o neto, patentemente interessado pela escrita, vai para a ilha procurar os lugares da pertença familiar e aí lendo devagar o texto do avô.

O livro, então, formalmente, é feito do intercalar constante do relato do avô, umas vezes em directo, na primeira pessoa, outras, em diferido, mediado pela leitura que dele o neto vai efectuando, e do relato das peripécias da sua – que é a nossa – actualidade.

O narrador actual não deverá ser confundido com o autor. Apesar de imensas semelhanças, a coincidência não poderá ser nunca absoluta. O narrador actual nunca é nomeado, mantendo-se a dúvida sobre a sua identidade, para além da sua condição de neto de João Pereira da Costa. Essa talvez seja uma das astúcias maiores deste livro. Criar a verosimilhança dos acontecimentos através da sugestão no leitor de que narrador e autor são uma e mesma pessoa, assim como ir utilizando várias marcas de realidade no meio da ficção.

 

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O paralelo entre o avô e o neto tem mais que muitas virtualidades. A solidão, a estranheza, a sensação de que há algo impossível por viver, uma certa inadaptação ou desadequação existencial que o micaelense actual experimenta são paralelas àquela que o seu avô vivenciou a partir da sua doença e do moroso e sacrifical processo de cura numa montanha nada mágica, mas igualmente sanatorial, como a de Mann. A doença, na sua concretude aflita, é símbolo máximo deste feixe de percepções. O leitor vai sendo ainda perpassado por um enorme conjunto de subtis e instigantes estranhezas: Há nomes semelhantes ou parecidos (o apelido Costa que se repete); o narrador é apresentado como micaelense mas parece não conhecer ninguém, só vagamente; o avô padece de tuberculose e o neto padece de asma, doenças respiratórias as duas e que remetem para a asfixia, frustração de querer respirar e não o conseguir, sinédoque ou metonímia da vontade de viver frustrada por mil e uma causas, condições e agentes: pela natureza imprevisível, feita de terramotos, vulcões e tempestades naufragantes, por doenças injustas; por um porteiro que não nos deixa entrar na discoteca onde seríamos felizes. E esta talvez seja uma das alegorias mais bem conseguidas de tantas que marcam o volume. Deus, o porteiro cósmico, não nos permitiu entrar onde achamos que pertenceríamos, onde julgamos que deveríamos estar, onde nos acolheríamos em prazer ou felicidade. Daí o ressentimento. O veneno da alma que nasce destas perguntas: Porquê? Porque terá sido assim? Porque me terá acontecido a mim? Qual a solução? Uma hipótese de resposta será a vingança. Mas esta, movida pelo ressentimento, é cega e o nosso narrador é confundido com o tal porteiro, o que o leva a ser vítima de uma tentativa de assassinato. Mas não era ele o porteiro, apesar de ser o autor de todo este cosmos, ou o nosso porteiro à entrada deste mundo. Daí que o louco agressor esteja paradoxalmente correcto. Qualquer autor sujeita-se a ser assassinado pela sua criatura, não é? Daí que o autor ou porteiro deste mundo seja constantemente procurado e imprecado, às vezes louvado por um personagem que percorre as madrugadas de terço na mão, outras repreendido pelo seu sadismo ou indiferença pelas suas criaturas, outras pura e simplesmente acusado de inexistência. Mas a asma, sinédoque de todas as frustrações, impele a acção romanesca. A asma traz-me uma segunda asma: a ansiedade. A asma do espírito (p.118) Neste romance o avô é assim um duplo do neto, um fantasma identitário e um convite a um mergulho no inconsciente, enfrentando o que lá está, que é sempre o absurdo da perda: a libertação da dor física não nos livra da vivência da outra dor. A mestria do autor também se nota no modo como sabiamente evita os anacronismos e como não amalgama o avô e o neto, colocando em paralelo as suas angústias mas logrando traduzi-las em dramas geracionais culturalmente diversos (ainda que partindo da mesma e comum humanidade essencial: a resposta filosófica do avô à sua doença, nos anos 40, é colocada entre a fé tradicional e a racionalidade política e científica; em 2014, a percepção de Deus oscila mais descontraidamente entre a visão de um agente mau, cínico, zombeteiro, absurdo ou – afinal – inexistente, mas as respostas racionalistas também parecem ser aqui vistas a partir de um prudente distanciamento).

 

 

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Para além da doença, esconde-se a mágoa, a aflição, o ressentimento, a depressão. Constatar a dor, procurar a sua origem, constatar o horizonte da sua cessação, pormo-nos a caminho, literariamente, com equanimidade, mas sem perder a empatia, tanto maior quanto se constata como todas as cenas dependem umas das outras, num feixe de ligações infindo e indeslindável (como a stripper ser irmã do juiz). Endurecer sem perder a ternura, como dizia Ernesto Floresta.

A par desta descrição carinhosa do terrunho dos antigos, há também a atenção à actualidade, expressa sem ostensão nem fugas: a droga, a prostituição, vistas sem juízos de valor, mas remetendo para a paradoxal falta de horizontes no local onde o horizonte mais surge aos homens sob o signo do infinito. O mar.

As peripécias que vão compondo a viagem à Ilha (algumas delas, - provavelmente as menos inventadas – mui dignas seriam de figurar num caderno vermelho à Auster) e as personagens com que o narrador se vai cruzando, mesmo quando marcadas pelo absurdo ou pelo patético, não são julgadas mas mostradas na sua fragilidade. De realçar ainda o revelador cuidado em descrever a terra na sua humanização. O romance é abundante de topónimos que remetem não só para uma topografia íntima (para usar a bela e funda expressão de Domingos Lobo), uma microgeografia subjectiva – o lugar do primeiro beijo, a ravina onde se perdeu em criança, o mar onde se ia afogando – mas também para a asserção da nobilitante dignidade do singularmente remoto, do ínfimo, e do ermo. A par desta descrição carinhosa do terrunho dos antigos, há também a atenção à actualidade, expressa sem ostensão nem fugas: a droga, a prostituição, vistas sem juízos de valor, mas remetendo para a paradoxal falta de horizontes no local onde o horizonte mais surge aos homens sob o signo do infinito. O mar.

 

 

O livro que se tenta fazer é que é o livro que realmente se faz. São as peripécias de hoje que dão sentido às dores do avô. Foram as dores do avô que abriram a esperança na existência deste futuro. A prisão absurda pela qual o narrador passa é tão absurda e tão prisão como a doença do avô. Como a agressão perpetrada pela vítima do porteiro, que se chama Marinho, adjectivo que se aplicaria todos os ilhéus. Como a alergia quase fatal provocada pela combinação mágica de um fino e de um camarão, petisco que o menu deliciosamente apresenta sob o nome de absurdo. Como a recordação do quase afogamento ou da quase queda da infância. Desta sucessão de quases surge o sentido global. Céu nublado com boas abertas.

 

 

Além do cultivo da toponímia, com o sentido que apontámos, refira-se ainda a citação de expressões regionais, e a especulação sobre os seus sentidos mais profundos; o respeito quase terno pela religiosidade popular, que o avô teve de rejeitar com dramatismo, vista como paisagem anímica e como linguagem própria de uma história complexa cheia de dores e de metáforas salvíficas, ou a evocação de autores açorianos menos conhecidos, de novo, com candura e gratidão, assinalando uma pertença, uma busca identitária e um resgate ao olvido, como se está fazendo com o relato do avô, símbolo de todas as pertenças. Mas a tradição, como registo da passagem dos homens pelo mundo, é multímoda e contraditória, açoitada por ventos e terremotos. Daí que a dado momento o narrador declare coleccionar fotos tremidas. Essa é a modalidade mais certeira de guardar o mundo (p.168)É a tradição catálogo ou álbum destas tremuras.

O aforismo é um dos dons do autor e inscreve-o também numa nobre, riquíssima e desatendida tradição portuguesa, devedora talvez da nossa matriz mediterrânica, tanto na sua componente semita, judaica e arábico-muçulmana, em seu adagiário proverbial, como na componente clássica, greco-latina, em seu fulgor epigramático.

A personagem que faz de actor que representa que é um poeta numa terra de poetas também nos surge sob o signo da alegoria. Símbolo dos Açores, figurado como símbolo do açoriano que representa um papel para o turista, mas porventura com o sentido mais vasto do português actual que parece apenas viver encenadamente para beneficiar da visita do estrangeiro, mas é também símbolo da universal pantomima em que nos enredamos nos papéis sociais que vamos assumindo. Valorize-se ainda o talento já evidenciado noutras obras e aqui utilizado com segura medida para o cultivo do parágrafo lapidar, da observação sagaz, do aforismo como caminho e como meta da narrativa, porventura na linha de uma questa sapiencial do autor que se insinua e se entrevê, e por pudor se não manifesta mais berrantemente. O aforismo é um dos dons do autor e inscreve-o também numa nobre, riquíssima e desatendida tradição portuguesa, devedora talvez da nossa matriz mediterrânica, tanto na sua componente semita, judaica e arábico-muçulmana, em seu adagiário proverbial, como na componente clássica, greco-latina, em seu fulgor epigramático. Além do aforismo (que pode isolar-se – ou insular-se – da narrativa) registe-se o uso do sketch. Sim, do sketch. O aforismo e o sketch são géneros literários ilhéus. Ou são ilhas no meio de uma narrativa que é um continente. Certos delírios do narrador, além do valor alegórico e consolador que detêm, visando a descompressão do cenário de doença, servem como entremeses, como episódios dentro da narrativa maior, ampliando a sua dimensão simbólica e podendo perfeitamente ser utilizados separadamente, como aliás o autor já fez, na sua encarnação televisiva como Melancómico, com o episódio da maçonaria dos insones, aqui descrita como Ordem dos insones. Uma forma de dar dignidade aristocrática a quem não consegue fechar a pestana. Pessoas que se reuniam de noite para fazerem companhia umas às outras (p.194). Outra imagem do sentido possível da vida humana: pessoas que na noite, isto é, nas trevas da dor, da doença, do sofrimento moral, fazem companhia umas às outras.

 

 

A revolta daquele que não entrou na discoteca acaba por levá-lo a cometer o assassinato do porteiro e assim acaba preso. Agora a mágoa virar-se-á contra quem não lhe abriu a porta de saída (p-173). Esta personagem serve como linha de fuga, prevenindo-nos contra esta mágoa ressentida, aflição atroz ou revolta metafísica, noutras palavras: contra a solução anteriana para a cura do absurdo. Mas o absurdo afinal era apenas uma alergia. Ou um petisco.

 

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