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Notas a Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos Por Rui Lopo

por Nuno Costa Santos, em 20.07.16

 

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Não penso o que vai ser o pós-morte. Em vez disso, quero ficar. Quero saber o que é que ainda pode ser a vida, uma existência com engulhos mas ainda assim habitável e – por mais que a literatura a pinte com justiça num negro monocromático – é atravessada aqui e ali por pequenos milagres, alentos solares. (p.177)

Esta é uma estória sobre um avô e um neto. E a sua profundíssima ligação. O avô, João Pereira da Costa, está nos anos 40, ainda sem filhos, no Caramulo, exilado na montanha, segundo a sua expressão, tentando tratar-se de uma gravíssima tuberculose. Descreve o seu sofrimento físico e a angústia que o acompanha, a angústia de estar só, da improbabilidade da cura e da dúvida crescente sobre o seu lugar na sociedade e no mundo, sobre a impossibilidade da crença na religião tradicional, assim como sobre a inevitabilidade de enfrentar o que ela representa e o que a ela subjaz de mistério e de sentido. O avô escreve um relato que é uma carta ao futuro, pede a um descendente, que se interesse pela escrita, que se desloque aos Açores, a S. Miguel, a Ilha, para trazer de volta estórias do seu tempo. Por ventura, para as contrastar com aquelas que ele descreve nesse longo diário biográfico. Assim feito, o neto, patentemente interessado pela escrita, vai para a ilha procurar os lugares da pertença familiar e aí lendo devagar o texto do avô.

O livro, então, formalmente, é feito do intercalar constante do relato do avô, umas vezes em directo, na primeira pessoa, outras, em diferido, mediado pela leitura que dele o neto vai efectuando, e do relato das peripécias da sua – que é a nossa – actualidade.

O narrador actual não deverá ser confundido com o autor. Apesar de imensas semelhanças, a coincidência não poderá ser nunca absoluta. O narrador actual nunca é nomeado, mantendo-se a dúvida sobre a sua identidade, para além da sua condição de neto de João Pereira da Costa. Essa talvez seja uma das astúcias maiores deste livro. Criar a verosimilhança dos acontecimentos através da sugestão no leitor de que narrador e autor são uma e mesma pessoa, assim como ir utilizando várias marcas de realidade no meio da ficção.

 

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O paralelo entre o avô e o neto tem mais que muitas virtualidades. A solidão, a estranheza, a sensação de que há algo impossível por viver, uma certa inadaptação ou desadequação existencial que o micaelense actual experimenta são paralelas àquela que o seu avô vivenciou a partir da sua doença e do moroso e sacrifical processo de cura numa montanha nada mágica, mas igualmente sanatorial, como a de Mann. A doença, na sua concretude aflita, é símbolo máximo deste feixe de percepções. O leitor vai sendo ainda perpassado por um enorme conjunto de subtis e instigantes estranhezas: Há nomes semelhantes ou parecidos (o apelido Costa que se repete); o narrador é apresentado como micaelense mas parece não conhecer ninguém, só vagamente; o avô padece de tuberculose e o neto padece de asma, doenças respiratórias as duas e que remetem para a asfixia, frustração de querer respirar e não o conseguir, sinédoque ou metonímia da vontade de viver frustrada por mil e uma causas, condições e agentes: pela natureza imprevisível, feita de terramotos, vulcões e tempestades naufragantes, por doenças injustas; por um porteiro que não nos deixa entrar na discoteca onde seríamos felizes. E esta talvez seja uma das alegorias mais bem conseguidas de tantas que marcam o volume. Deus, o porteiro cósmico, não nos permitiu entrar onde achamos que pertenceríamos, onde julgamos que deveríamos estar, onde nos acolheríamos em prazer ou felicidade. Daí o ressentimento. O veneno da alma que nasce destas perguntas: Porquê? Porque terá sido assim? Porque me terá acontecido a mim? Qual a solução? Uma hipótese de resposta será a vingança. Mas esta, movida pelo ressentimento, é cega e o nosso narrador é confundido com o tal porteiro, o que o leva a ser vítima de uma tentativa de assassinato. Mas não era ele o porteiro, apesar de ser o autor de todo este cosmos, ou o nosso porteiro à entrada deste mundo. Daí que o louco agressor esteja paradoxalmente correcto. Qualquer autor sujeita-se a ser assassinado pela sua criatura, não é? Daí que o autor ou porteiro deste mundo seja constantemente procurado e imprecado, às vezes louvado por um personagem que percorre as madrugadas de terço na mão, outras repreendido pelo seu sadismo ou indiferença pelas suas criaturas, outras pura e simplesmente acusado de inexistência. Mas a asma, sinédoque de todas as frustrações, impele a acção romanesca. A asma traz-me uma segunda asma: a ansiedade. A asma do espírito (p.118) Neste romance o avô é assim um duplo do neto, um fantasma identitário e um convite a um mergulho no inconsciente, enfrentando o que lá está, que é sempre o absurdo da perda: a libertação da dor física não nos livra da vivência da outra dor. A mestria do autor também se nota no modo como sabiamente evita os anacronismos e como não amalgama o avô e o neto, colocando em paralelo as suas angústias mas logrando traduzi-las em dramas geracionais culturalmente diversos (ainda que partindo da mesma e comum humanidade essencial: a resposta filosófica do avô à sua doença, nos anos 40, é colocada entre a fé tradicional e a racionalidade política e científica; em 2014, a percepção de Deus oscila mais descontraidamente entre a visão de um agente mau, cínico, zombeteiro, absurdo ou – afinal – inexistente, mas as respostas racionalistas também parecem ser aqui vistas a partir de um prudente distanciamento).

 

 

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Para além da doença, esconde-se a mágoa, a aflição, o ressentimento, a depressão. Constatar a dor, procurar a sua origem, constatar o horizonte da sua cessação, pormo-nos a caminho, literariamente, com equanimidade, mas sem perder a empatia, tanto maior quanto se constata como todas as cenas dependem umas das outras, num feixe de ligações infindo e indeslindável (como a stripper ser irmã do juiz). Endurecer sem perder a ternura, como dizia Ernesto Floresta.

A par desta descrição carinhosa do terrunho dos antigos, há também a atenção à actualidade, expressa sem ostensão nem fugas: a droga, a prostituição, vistas sem juízos de valor, mas remetendo para a paradoxal falta de horizontes no local onde o horizonte mais surge aos homens sob o signo do infinito. O mar.

As peripécias que vão compondo a viagem à Ilha (algumas delas, - provavelmente as menos inventadas – mui dignas seriam de figurar num caderno vermelho à Auster) e as personagens com que o narrador se vai cruzando, mesmo quando marcadas pelo absurdo ou pelo patético, não são julgadas mas mostradas na sua fragilidade. De realçar ainda o revelador cuidado em descrever a terra na sua humanização. O romance é abundante de topónimos que remetem não só para uma topografia íntima (para usar a bela e funda expressão de Domingos Lobo), uma microgeografia subjectiva – o lugar do primeiro beijo, a ravina onde se perdeu em criança, o mar onde se ia afogando – mas também para a asserção da nobilitante dignidade do singularmente remoto, do ínfimo, e do ermo. A par desta descrição carinhosa do terrunho dos antigos, há também a atenção à actualidade, expressa sem ostensão nem fugas: a droga, a prostituição, vistas sem juízos de valor, mas remetendo para a paradoxal falta de horizontes no local onde o horizonte mais surge aos homens sob o signo do infinito. O mar.

 

 

O livro que se tenta fazer é que é o livro que realmente se faz. São as peripécias de hoje que dão sentido às dores do avô. Foram as dores do avô que abriram a esperança na existência deste futuro. A prisão absurda pela qual o narrador passa é tão absurda e tão prisão como a doença do avô. Como a agressão perpetrada pela vítima do porteiro, que se chama Marinho, adjectivo que se aplicaria todos os ilhéus. Como a alergia quase fatal provocada pela combinação mágica de um fino e de um camarão, petisco que o menu deliciosamente apresenta sob o nome de absurdo. Como a recordação do quase afogamento ou da quase queda da infância. Desta sucessão de quases surge o sentido global. Céu nublado com boas abertas.

 

 

Além do cultivo da toponímia, com o sentido que apontámos, refira-se ainda a citação de expressões regionais, e a especulação sobre os seus sentidos mais profundos; o respeito quase terno pela religiosidade popular, que o avô teve de rejeitar com dramatismo, vista como paisagem anímica e como linguagem própria de uma história complexa cheia de dores e de metáforas salvíficas, ou a evocação de autores açorianos menos conhecidos, de novo, com candura e gratidão, assinalando uma pertença, uma busca identitária e um resgate ao olvido, como se está fazendo com o relato do avô, símbolo de todas as pertenças. Mas a tradição, como registo da passagem dos homens pelo mundo, é multímoda e contraditória, açoitada por ventos e terremotos. Daí que a dado momento o narrador declare coleccionar fotos tremidas. Essa é a modalidade mais certeira de guardar o mundo (p.168)É a tradição catálogo ou álbum destas tremuras.

O aforismo é um dos dons do autor e inscreve-o também numa nobre, riquíssima e desatendida tradição portuguesa, devedora talvez da nossa matriz mediterrânica, tanto na sua componente semita, judaica e arábico-muçulmana, em seu adagiário proverbial, como na componente clássica, greco-latina, em seu fulgor epigramático.

A personagem que faz de actor que representa que é um poeta numa terra de poetas também nos surge sob o signo da alegoria. Símbolo dos Açores, figurado como símbolo do açoriano que representa um papel para o turista, mas porventura com o sentido mais vasto do português actual que parece apenas viver encenadamente para beneficiar da visita do estrangeiro, mas é também símbolo da universal pantomima em que nos enredamos nos papéis sociais que vamos assumindo. Valorize-se ainda o talento já evidenciado noutras obras e aqui utilizado com segura medida para o cultivo do parágrafo lapidar, da observação sagaz, do aforismo como caminho e como meta da narrativa, porventura na linha de uma questa sapiencial do autor que se insinua e se entrevê, e por pudor se não manifesta mais berrantemente. O aforismo é um dos dons do autor e inscreve-o também numa nobre, riquíssima e desatendida tradição portuguesa, devedora talvez da nossa matriz mediterrânica, tanto na sua componente semita, judaica e arábico-muçulmana, em seu adagiário proverbial, como na componente clássica, greco-latina, em seu fulgor epigramático. Além do aforismo (que pode isolar-se – ou insular-se – da narrativa) registe-se o uso do sketch. Sim, do sketch. O aforismo e o sketch são géneros literários ilhéus. Ou são ilhas no meio de uma narrativa que é um continente. Certos delírios do narrador, além do valor alegórico e consolador que detêm, visando a descompressão do cenário de doença, servem como entremeses, como episódios dentro da narrativa maior, ampliando a sua dimensão simbólica e podendo perfeitamente ser utilizados separadamente, como aliás o autor já fez, na sua encarnação televisiva como Melancómico, com o episódio da maçonaria dos insones, aqui descrita como Ordem dos insones. Uma forma de dar dignidade aristocrática a quem não consegue fechar a pestana. Pessoas que se reuniam de noite para fazerem companhia umas às outras (p.194). Outra imagem do sentido possível da vida humana: pessoas que na noite, isto é, nas trevas da dor, da doença, do sofrimento moral, fazem companhia umas às outras.

 

 

A revolta daquele que não entrou na discoteca acaba por levá-lo a cometer o assassinato do porteiro e assim acaba preso. Agora a mágoa virar-se-á contra quem não lhe abriu a porta de saída (p-173). Esta personagem serve como linha de fuga, prevenindo-nos contra esta mágoa ressentida, aflição atroz ou revolta metafísica, noutras palavras: contra a solução anteriana para a cura do absurdo. Mas o absurdo afinal era apenas uma alergia. Ou um petisco.

 

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publicado às 00:33

De volta à casa dos meus avós, para a Magnética Magazine

por Nuno Costa Santos, em 21.06.16

Em casa dos meus avós maternos, no bairro da Estefânia, Lisboa, numa conversa conduzida pelo Gonçalo Mira - na qual revisito diários e devolvo os documentos ao lugar onde pertencem - que inclui texto do próprio. A fotografia e o vídeo são da Beatriz Pereira e a edição vídeo do Alexandre Murtinheira.

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publicado às 01:42

Futebol crioulo

por Nuno Costa Santos, em 23.05.16

Vocês que são versados em arbitragens que falem de árbitros e de colinhos. Vocês que discutem muito que discutam muito. Deixem-me falar daquilo que vi no fim do jogo, nos balneários do Benfica: o menino Renato Sanches, eufórico, a pegar no microfone e a entrevistar os jogadores do seu clube enquanto todos levavam banhos de champanhe.

O rapaz, filho de pais de São Tomé e Príncipe e de Cabo Verde, que começou a jogar à bola no Águias da Musgueira, encontrou o lateral direito Nélson Semedo. Nélson tem dupla nacionalidade (cabo-verdiana e portuguesa), iniciou-se nestas artes no Sintrense e acaba de cumprir o assumido sonho de vencer o campeonato português pelo seu "clube do coração".

O resto aqui.

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publicado às 09:36

Mário Miranda

por Nuno Costa Santos, em 16.05.16

Conheci-o há mais de 10 anos, em Goa, na sua velha casa em Loutolim. Rodeava-se de cães que ladravam junto à serenidade da sua expressão - uma serenidade fechada, sem amabilidades excessivas nem rudes distanciamentos. Chamava-se Mário Miranda e foi um dos grandes cartoonistas indianos do século XX, colaborador de publicações como The Times of India.

Católico de origem brâmane, morreu em 11 de Dezembro de 2011, aos 85 anos. Há dias, o Google, assinalando os 90 anos do seu nascimento, dedicou-lhe um Google Doodle, logótipo de homenagem ao seu traço e ao seu imaginário.

Mais aqui.

 

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publicado às 01:00

O texto "porta-aviões" do João Nuno Almeida e Sousa sobre

por Nuno Costa Santos, em 04.05.16

Romaria Profana

 

Nuno Costa Santos é debutante na perigosa arte do primeiro romance com este Céu Nublado com Boas Abertas, mas é um veterano numa lide com várias frentes nas letras em geral. Poeta e cronista dos costumes portugueses; biógrafo de escritas alheias como é o caso de Fernando Assis Pacheco; blogger em vários projectos incluindo o :Ilhas; melómano com passagem pela rádio e sketcher com experiência televisiva; humorista de produções fictícias e dono de um humor com marca registada: o melancómico. Tudo isto são dimensões de um autor multifacetado que tem ainda outras três valências a destacar: a de dramaturgo e encenador engajado socialmente, com destaque para o Condomínio da Rua, que esteve em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, ou para a mais recente e notável peça I Don't Belong Here, um projecto sobre deportação partilhado com Dinarte Branco; a de jornalista com uma marcante colaboração com o Açoriano Oriental, especialmente com uma arqueologia completa e imparcial dos acontecimentos do 6 de Junho e do Verão Quente de 75 que, pelo seu valor histórico, documental e jornalístico, devia ser compilada e editada; a de cinéfilo e cineasta com uma das joias do seu currículo: Noite de Festa, um filme que permanece na memória de quem viu e que tem muitas pontes de contacto com a linguagem e planos de imagem desenrolados neste Céu Nublado com Boas Abertas.

 


Há ainda uma outra dimensão da obra do Nuno Costa Santos que quem o conhece ou se cruzou de alguma forma com a mesma não pode omitir: o Nuno é um exímio cinto negro e praticante regular da arte do aforismo. A propósito repesco um aforismo: “Never Judge a Book by the Cover”, uma falácia hipócrita para quem gosta de livros, impossível de contornar, quando nos deparamos com esta primorosa edição, onde todos os pormenores e protocolos de leitura são de irrepreensível funcionalidade e bom gosto, da gramagem do papel, ao lettering e espaçamento de texto que respeita o leitor, até ao cuidado do design de cada vinheta que adorna a abertura dos diversos capítulos. As expectativas que se oferecem no espaço opinativo da contracapa e das badanas, bem como a autoridade da crítica publicamente reconhecida, orientam o leitor no bom caminho para dentro da obra que tem em mãos. O autor não esquece uma nota de agradecimentos típica de quem tem a humildade e generosidade de evocar familiares e amigos. De referir que Nuno Costa Santos cresceu num círculo intelectualmente curioso e criativo que influenciou e pelo qual foi influenciado. Um círculo excepcional, com interesses comuns, incluindo a Arte, que ainda hoje o acompanha e no qual têm lugar honorário Alexandre Pascoal, Bernardo Rodrigues, André Almeida e Sousa, Pedro Arruda, Zé Bernardo Rodrigues, os irmãos Albergaria e os irmãos Decq.

 

Em Céu Nublado com Boas Abertas um desafio vindo do passado em escrito do Avô é a casa de partida de um regresso à Ilha. Numa nota que cai, ao acaso ou talvez não, de um volume da Biblioteca na casa de Lisboa de João Pereira da Costa, é lançada a demanda: “Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da Ilha”. E isto com um conselho do além: “não se fatigue demasiado. Viva a vida que não consegui viver”. Com este bilhete de um remetente do passado a um destinatário futuro, Nuno Costa Santos retorna a São Miguel, onde se faz “romeiro profano” numa “jornada insular”. Nesta obra a dois tempos há um permanente diálogo com o livro que o Avô quis escrever e editar, deixado em herança ao Nuno, e outro livro que no presente o autor vai escrevendo num coito ininterrupto entre a realidade e a ficção, sendo que aquela, nas ilhas, supera frequentemente a ficção e é pasto fértil para narrativas próximas do realismo fantástico.

 

No debulhar da história de João Pereira da Costa, o autor segue um fio de sangue que o liga geneticamente à história do Avô. Há uma Montanha Mágica replicada no Caramulo, enquanto vasto sanatório para “lesados” da tuberculose, onde João Pereira da Costa é obrigado a exilar-se da sua ilha. Mas, para lá do “purgatório” do sanatório, há também memórias do “Éden” da ilha. O retrato a sépia e a preto e branco de outro tempo, suspenso no Caramulo ou em andamento na ilha, é um trilho paralelo que se vai construindo em Céu Nublado com Boas Abertas, no meio da flora e da fauna local, sendo que o deslumbre com a ilha-jardim é, para Nuno Costa Santos “uma visão mitificada que esconde as angústias e os medos da caminhada adolescente”.

 

Fazer a crítica de qualquer obra, incluindo, a literária “(...) não é ciência, mas, na melhor das hipóteses, diálogo, encontro de vozes e respectivas mundividências”, disse José Martins Garcia. Dialogar com este livro de Nuno Costa Santos é também viajar para um mundo com um tempo de eterno Verão Azul numa adolescência que não quer acabar. É o mapa para um paraíso perdido que, nas palavras resgatadas a José Martins Garcia, é a chave para a “mundividência de uma existência num estado paradisíaco, inicial, harmonioso, como que isento do desgaste do tempo” e nessa “nostalgia das origens”, o mito antigo do paraíso perdido, aquele que ecoa na obra de Milton,enquanto “idade da ventura ou inocência”, desloca-se para a infância e adolescência. Essa visão romantizada, ou mitificada, como escreve o autor, que marca o livro, não esconde o recorrente e típico sentimento insular de que a ilha é uma prisão. Será por acaso que um dos capítulos se desenrola sob a epígrafe Prison Blues? Creio que aqui nada é por acaso e que o Nuno Costa Santos, autor que se confunde com o narrador, na demanda do “romance definitivo sobre as questões essenciais da existência: o amor, a morte e a água azeda”, tenta na literatura a fuga artística de uma “ilha que tanto apaixona como oprime”. Uma ilha-prisão em forma de rotunda numa longa circular, hoje dispensada dos enjoos de má memória, pois as novas gerações vivem “uma pavimentada existência em linha recta”. E é também em linha recta, em fuga desse cárcere em forma de ataúde suspenso no mar, que recorrentemente o autor/narrador, com a mesma pulsão natural que o impele a escrever, sente o apelo da evasão em passo de corrida, de se atirar a um longo jogging, e de caminhar sobre as águas como um atleta bíblico.

 

Ao longo de toda a deambulação pela ilha grande fechada há esse recorrente ponto de fuga que nos lembra o Estranho Mundo de Garp, pois, no livro de John Irving, Garp, a excêntrica personagem principal, por tudo e por nada, sem saber porquê, saía disparado porta fora para correr. Talvez seja porque correr é um manifesto libertário que une “os nossos dois impulsos mais primários: o medo e o prazer”, como bem escreveu Christopher Mcdougall em Nascidos para Correr: “Corremos quando estamos assustados, corremos quando estamos em êxtase, corremos em fuga dos nossos problemas e corremos para nos divertirmos. E é quando as coisas parecem piores que mais corremos.” Ora, perante a opressão e o “stress insularis” diagnosticado por Nuno Costa Santos, o mesmo prescreve, em automedicação a essa condição, longas caminhadas e penitentes corridas numa romaria profana pela Ilha.

 

Céu Nublado com Boas Abertas é um querido diário desses dias de deambulação, em que a partida se confunde com a chegada (veja-se o eterno retorno que liga o princípio ao fim do livro), num registo de enamoramento com a Ilha. É um diário sem roteiro, como o filme de Moretti, só que em vez de lambretar pela cidade eterna, sob a luz dourada de Roma, temos o registo pedestre de Nuno Costa Santos sob um céu muito nublado, intervalado com as boas abertas que compensam o negrume da insularidade. Essa mesma Insularidade que no livro e na vida real é o equilíbrio instável das variações de humor entre só estar bem aonde não se está e o querer ir aonde não se vai. A Insularidade é uma inquietude definida assim na lição de José Almeida Pavão: “O nascer ou viver numa Ilha. O ser sempre Ilha. O ter corpo e alma de Ilha, mesmo fora dela. O ter presente uma ausência perene. Uma perpétua saudade que identifica a ânsia da partida com o desejo de retorno. O cárcere que se transporta dentro de nós”. Como essa inquietude é constitucional ao micaelense, a presença do Divino, como amparo perante forças maiores do que o indivíduo, é uma marca de um temor reverencial aos desígnios de Deus. Tal como noutras obras de Nuno Costa Santos – em especial no filme Noite de Festa - a presença do Divino e da religiosidade telúrica dos micaelenses é marcante no autor e na obra. Conclui Nuno Costa Santos que os Açorianos são um “povo herdeiro de um cristianismo penitente”, acentuado nos micaelenses, o que no livro se venera com recorrentes passagens de romeiros e romarias ao longo da ilha. Apesar de afirmar: “O Deus da minha geração não existe” é com o fervor de quem lamenta a perda dessa fé “de um povo de aflitos” que descreve os romeiros envoltos na bruma referida como “a barba de um Deus do absurdo”.

 

Quase no final do livro e da sua “jornada insular de romeiro profano” encontra, porque procura, um Irmão Romeiro, deliberadamente sem nome ou qualquer traço identitário excepto o de possuir o “sorriso de Deus se Deus existir”. Esse Irmão Romeiro, que reza por todos os aflitos, encerra, com a sua oração, uma das mais marcantes páginas de Açorianidade deste livro. Escreve Nuno Costa Santos, com brilhantismo, que “este sempre foi um povo de aflitos – é daí que vem a religião, socorro para quem suportou, sem ajudas, intempéries e humores meteorológicos. Um povo aflito que habita em ilhas de vulcões, terramotos, pilhadas por piratas, feita de gente que desbravou uma terra agreste e que, no meio de tanta aflição, rezou, implorou uma prece aflita, dominada pelo medo das intempéries, numa terra que tem tanto de belo como tenebroso”. Para lá dessa tipologia antropológica, tão atavicamente ligada à natureza da ilha-jardim ou ilha-prisão, “que tem tanto de belo como tenebroso”, Nuno Costa Santos, em Céu Nublado com Boas Abertas, colecciona vários espécimes da flora e fauna locais.


No portefólio deste Céu Nublado com Boas Abertas a flora é um registo que emoldura a verde a fauna da ficção, desde a Planthatera Azorica (uma orquídea única dos Açores), passando pela Araucaria Heterophylla (uma árvore natural das ilhas do Sul no Pacífico e replicada no meio do Atlântico numa mata no Livramento), até ao Jasmin Grandiflorum e à Malva Vacciones (sementes da indústria de transformação do chá), tudo acrescido de um largo "etc" num jardim silvestre de Urze, Pau-Branco, Cedro, Louro, Sanguinho, Mogno, Acácia, Criptoméria, Camélias, Hortênsias e Azáleas.

 

É nesse cenário que se move a fauna com que nos cruzamos sob um Céu Nublado com Boas Abertas: Laureano Veneno, pedreiro e traficante acidental de cocaína; Neuza - a ruiva do Pico -, stripper profissional e, nas horas vagas ,amante de Laureano; Marinho de Mississauga, um repatriado do Canadá com um ressentimento que remonta aos anos 80 por ter sido barrado à porta de uma boîte; um sósia de Céline que disfarça um pescador de São Roque; Étienne Bouchiére, velejador francês e traficante profissional com sotaque brasileiro; o Sr. Zhang improvável mordomo chinês de um Império do Divino Espírito Santo; um Inspector da Polícia Judiciária, espécie de polícia secreta de uma ilha com segredos sombrios, que se alivia da sua existência com doses letais de stand-up comedy sueca e que, sem perceber a piada, tem uma cadela labrador de nome "Blika", que usa para fossar no ofício de detectar estupefacientes; um juiz de lábios mortos, de fácies lombrosiano à la Buster Keaton, e discípulo daquela Faculdade de Direito que sepulta a eito a melhor juventude da adolescência; um poeta por obrigação, cheio de borbotos no traje de representar para turistas o repertório de clichês do postal-poético da bruma, emoldurando gaivotas sobre o basalto negro; um imitador de Kafka com sotaque micaelense perdido nos castelos de fumarolas das Furnas e possível agrimensor dos labirintos curtos da sociedade micaelense; um James Joyce que sonha com os Açores e um burguês, Henrique, arquétipo de “amigo de infância” a quem nada se tem a dizer na distância que a idade cria entre os cúmplices da adolescência.

 

Sobre a Literatura escreveu António Cândido, um dos maiores críticos literários da Língua Portuguesa, que “(...) é uma actividade sem sossego. Não só os homens práticos, mas também os pensadores e moralistas questionam a sua validade, concluindo que não se justifica: porque nos afasta de tarefas sérias, perturba a paz da alma, ou porque cria maus hábitos de devaneio. Isto faz com que a literatura quase nunca tenha a consciência tranquila e manifeste desassossego com tudo o que é reprimido ou contestado: tem dramas morais, renuncia, agride, exagera a própria dignidade, bate no peito e justifica-se sem parar. Logo, não é raro vermos os escritores envergonhados do que fazem, como se estivessem praticando um acto reprovável ou desertando de uma função mais digna e burguesa. Então, enxertam na sua obra um máximo de não-literatura, sobrecarregando-a de moral ou política, de religião ou sociologia, pensando justificá-la deste modo, não apenas perante os tribunais da opinião pública, mas ante os tribunais interiores da própria consciência”.
Ao contrário da nebulosidade dos dias, a consciência de Nuno Costa Santos perante este livro só pode estar imaculada e do mesmo só pode exibir orgulho, partilhando-o com os seus leitores, amigos, e família que tanto preza. No resto, amanhã, sem surpresas, a previsão meteorológica é de céu nublado com eventuais boas abertas.

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publicado às 00:26

Fire

por Nuno Costa Santos, em 04.05.16

“Fire”. Claudio Ranieri recorreu a esta música dos Kasabian, banda de Leicester, para empolgar a sua equipa antes do jogo com o Sunderland, o primeiro da época. Ranieri queria que os jogadores se sentissem guerreiros – e que os adeptos os vissem como guerreiros. O jogo acabou por ficar 4-2 a favor do Leicester e o treinador fez a revelação. Os elementos da banda, que tem temazaços como “Club Foot” e “L.S.F”, estavam em tournée na Bulgária e fizeram tudo para arranjar um sítio onde pudessem espreitar a partida – e conseguiram-no.


Sergio Pizzorno, guitarrista, disse que essa revelação do treinador do Leicester soube melhor do que todos os prémios que os Kasabian já receberam. Mas Serge não é o único a festejar. Tom Meighan, o vocalista, também se assume como grande fã desde criança. Serge e Tom anunciaram ainda antes do momento que determinou o título que iriam dar um concerto no King Power Stadium. A festa entrará para a história do Leicester.
Os Kasabian não são a primeira banda a inspirarem os adeptos de um clube. Em 2014, após o Manchester City ter ganho o campeonato inglês, numa vitória sobre o West Ham, os adeptos cantaram “Wonderwall”, dos Oasis. Os irmãos Gallagher são fanáticos do clube e, embora zangados (como é seu costume), assistiram ao jogo no estádio. Quem também lá estava era o génio Johnny Marr, que acabou por invadir o relvado com Noel Gallagher. Noel levou para casa a faixa de capitão de Vincent Kompany. Em 2010, adeptos do Tottenham cantaram para um anúncio uma romântica canção dos australianos Savage Garden chamada “Truly, Madly, Deeply”. Com voz de pub – para depois serem respeitados em casa.


No campeonato do mundo de 1990, que decorreu na Itália, a selecção de Inglaterra teve direito a uma música dos New Order, “World In Motion”, que conta com um rap de John Barnes e a participação vocal de outros jogadores, além de uma perninha do comediante Keith Allen, coescritor da letra. Outra banda que compôs para a selecção inglesa foram os moços de Liverpool Lightning Seeds. O tema foi o épico “Three Lions” que conta com uns inesquecíveis versos: “We still believe, we still believe/ It's coming home, it's coming home”. A música foi composta em 1996 e constituiu a banda sonora britânica para o Europeu, que teve lugar justamente em Inglaterra.


Ainda dentro desta ligação entre o futebol e a música, não haverá muita gente a saber que Elton John, adepto do Watford FC e espectador dos jogos da equipa desde pequeno (acompanhando o pai e o tio), tornou-se presidente do clube em 1973. Na altura a equipa estava na quarta divisão e só em 1982 a equipa conseguiu jogar na primeira divisão. Presume-se que não tenha sido “Tiny Dancer” a música inspiradora dos fãs. Quem sabe “Rocket Man”. Quem sabe.

 

 

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publicado às 00:13

A morte dos deuses

por Nuno Costa Santos, em 03.05.16

Vamos reparando no fenómeno. Só quando morre um dos grandes é que nos apercebemos por inteiro de que somos mortais. Morre alguém chegado, da família ou amigo, ou então uma pessoa conhecida, e não sentimos – não interiorizamos – que um dia será a nossa vez. Morre uma figura pública que admiramos, daquelas que julgávamos que nunca iriam morrer, e ligamos uns para os outros, aflitos com a fragilidade essencial da nossa condição de seres humanos com prazo de validade.
Aconteceu com David Bowie e Nicolau Breyner. E agora, nestes dias, com Prince. Conto-vos a minha experiência. Estava em Gouveia, a saborear um queijo local depois da apresentação de um livro, quando o Luís Filipe Borges, que estava comigo, partilhou a notícia: Prince morreu. Quando liguei o telemóvel, percebi que os meus me tinham ligado. A morte de Prince aproximou-nos.

O reso aqui

 

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publicado às 05:54

Ressentimento e Culpa

por Nuno Costa Santos, em 02.05.16

“A Origem do Ódio - Crónica de um Retiro Sentimental”, de Rui Ângelo Araújo, edição da Língua Morta (2015), é uma novela de 92 páginas sobre essa condição universal que é o ressentimento amoroso de alguém que não aceita o final de uma relação. Não, o tom e o estilo nada têm de auto-ajuda travestida de ficção. É cru, faz-se de aforismos pessimistas sobre a natureza humana e fixa-se em pormenores de um dirty realism muito cá da casa, tendo como referência ocasional o “patético protagonista” de “Bunny Munro”, romance do senhor Nick Cave, praticante da ancestral arte da maturbação mesmo nas imediações do caixão da mulher.

O narrador-protagonista desta espécie de relato que resulta num desabafo catártico apaixona-se por Sílvia, menina de uma alegada casta superior, de boas família e vastos privilégios, e acaba por ser abandonado na sequência de um, digamos, pouco elegante esbofeteamento.

Qual o movimento psicológico do sujeito, entretanto transformado em advogado burguês, depois da rejeição contínua da mulher que continuava a querer? Esse. “Se não podia amar a minha mulher tinha de a odiar”. O ódio, sim, esse terrorismo mental sempre à espera de uma oportunidade de emprego. O ambiente onde tudo decorre oscila entre o que se respira nas nobres quintas do Douro e as misérias habituais do facebook.

As reflexões, com referências artísticas (literárias, musicais) do narrador despeitado, ressentido e vingativo, intelectualizam-no. É a fala de um homem feito de desilusões maturadas pela vida e pelas leituras. Mas que desconfia do seu talento para desfilar o enredo de sua mistura de ilusão e desilusão amorosa: “Sou um advogado que escreve como um engenheiro e argui na barra como um feirante (....), como posso eu falar de amor?”. Mas que é capaz de passagens bem sacadas sobre a natureza humana: “Os homens e as mulheres seriam certamente muito mais infelizes se não tivessem o abrigo da noite para cumprirem os seus ritos proscritos, se a luz do dia fosse permanente e com ela permanente a possibilidade de serem vistos”.

O paulista, descendente de argentinos, Julián Fuks escreveu “A Resistência” (Companhia das Letras, 2016), um livro no qual o narrador tem um irmão adoptado e tenta escrever sobre ele - sobre a relação que manteve e mantém com ele, sobre as palavras a que recorre para o nomear. Com todos os cuidados, com uma coreografia lenta de muitas inquietações. É feito de um imenso pudor o avanço desta pesquisa. Apresenta uma rima com o livro de Rui Ângelo Araújo: é sobre um sentimento que se pesquisa literariamente. Há um mesmo tom ruminativo e obsessivo de quem procura respostas que levam tempo a chegar.

Agora não é um amor arruinado e as suas sequelas mas sim o amor fraternal que o narrador investiga, com avanços e recuos, descobertas ocasionais. Não é raro emergir um sentimento de remorso: “Estarei com este livro tratando de lhe roubar a vida, de lhe roubar a imagem, e de lhe roubar também, furtos menores, o silêncio e a voz?”. Também existe o tactear dos fragmentos contados do passado familiar. Gesto que ora afirma ora retira a afirmação para deixar uma dúvida. “Sei que escrevo meu fracasso. Não sei bem o que escrevo. Vacilo entre um apego incompreensível à realidade (...) e uma inexorável disposição fabular, um truque alternativo, a vontade de forjar sentidos que a vida se recusa a dar”. Se houvesse um género para encaixar este livro seria o de livro-dúvida.

A história não é só sobre um irmão que foi adoptado num contexto extremo da História da Argentina, feito de muitos desaparecimentos, torturas e orfandades. Também é sobre os pais, guerrilheiros de esquerda, expulsos de Buenos Aires em tempos de ditadura militar, quando o irmão nem seis meses de idade somava, sobre a sua clandestinidade, a sua luta, a sua forma de sobrevivência. Foram viver para o Brasil, onde se instalaram oficialmente depois do nascimento de uma filha.

Há um remorso não só associado ao gesto de escrever sobre o que nunca poderá ser capturado mas também à circunstância de a certa altura o irmão adoptado revelar as suas mágoas em relação à família, distraída entre profissões, obsessões, quimeras e esquecimentos.

A linguagem é sempre sóbria e vigilante dos seus excessos: “São falaciosas essas perguntas, líricas demais para guardar uma verdade”. Desconfia da própria literatura: “Nenhum livro jamais poderá contemplar ser humano nenhum”. Mas pode tentar. E é o que fazem, nestes dois livros, Rui Ângelo Araújo e Julián Fuks: tentar. Tentar a aproximação possível.

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Hoje, 18h30, na Fnac Chiado

por Nuno Costa Santos, em 20.04.16

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Último melancómico

por Nuno Costa Santos, em 10.04.16

O último episódio do melancómico – merece a visita ao bairro, nem que seja por ser o epílogo de um imaginário desenhado com rigor estético e fundado na procura de retratar o estado do personagem no actual momento da sua imaginária existência. Descobriu outro bairro, Campolide, e foi aí que encontrou novos lugares, novos amigos, novos enredos, mantendo sempre o mesmo corte de cabelo.
Não, não ponham para a frente. Este episódio tem o ritmo de uma lenta melancolia necessária a um final que a pediu. É um adeus ao bairro durante o qual se ouvem as músicas recorrentes da sua banda sonora.
Há uma coincidência com a actualidade: na conversa inicial com o João Cunha, o único amigo do melancómico tenta convencê-lo a sair do bairro, a ir ver o mundo lá fora. E o melancómico questiona. Para quê? Para ir para um offshore de engratados? Foi mesmo uma coincidência porque o episódio foi gravado há umas largas semanas.
Adeus RTP 3. Que venham mais projectos assim, óvnis ora poéticos ora humorísticos ora documentais, que sustenham por breves minutos a saliva que os jornalistas televisivos têm pela informação pronta-a-comer. Que venham outros, com outras experiências, com outros imaginários. E em formatos curtos também. É missão da RTP apostar em formatos curtos de imaginários alternativos – porque só uma estação de serviço público o pode fazer.

 

 

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